Viajantes Interplanetários

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sábado, 6 de abril de 2013

NO ALTO DO BIGODE

                                       (A Fred Caju)

Bendita hora que faltou luz,
Lá no Alto do Bigode,
Demorou um mês para voltar,
E um menino, entediado, não tinha o que fazer,
Era o único que estudava no contraturno,
Não viu Cavaleiros do Zodíaco,
E sua mãe perdeu a novela

Naqueles dias de marasmo, sem poder sair de casa,
Devorou cada linha dos treze volumes
Dos romances da pós-revolução francesa,
Empoeirados na estante velha
E, às vezes, a luz da vela,
Concluía as últimas linhas
De um livro de Alexandre Dumas

Bendita hora que a escuridão fez a noite,
Que cessaram os televisores e os aparelhos de som,
Que muita gente reclamou a Celpe
E outros fizeram protesto

E aquele menino, lá do Alto do Bigode,
Ainda não tinha ideia, que naquele exato momento,
O sol iluminava um poeta!


(Lucas Holanda)



E você aí vacilando sabendo que hoje tem

 

sábado, 2 de março de 2013

NO ALTO DO BIGODE

                                          (A Fred Caju)

Bendita hora que faltou luz,
Lá no Alto do Bigode,
Demorou um mês para voltar,
E um menino, entediado, não tinha o que fazer,
Era o único que estudava no contraturno,
Não viu Cavaleiros do Zodíaco,
E sua mãe perdeu a novela

Naqueles dias de marasmo, sem poder sair de casa,
Devorou cada linha dos treze volumes
Dos romances da pós-revolução francesa,
Empoeirados na estante velha
E, às vezes, a luz da vela,
Concluía as últimas linhas
De um livro de Alexandre Dumas

Bendita hora que a escuridão fez a noite,
Que cessaram os televisores e os aparelhos de som,
Que muita gente reclamou a Celpe
E outros fizeram protesto

E aquele menino, lá do Alto do Bigode,
Ainda não tinha ideia, que naquele exato momento,
O sol iluminava um poeta!


(Lucas Holanda)



E você aí vacilando sabendo que hoje tem
  

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MicroConto

Então, ele entrou no puteiro e disse à cafetina:
- Por favor, a senhora me providencie uma foda não-acrobática, para um homem assim como eu, entre os 45 e 50 anos, já desgastado pelo trabalho.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Pedro (VISÃO PERIFÉRICA no.11)


"Hoje, eu vou chorar", dizia com pleno entendimento dos seus sentimentos aos quase quatro anos de idade. O carro havia estacionado no posto de saúde, seus pais se surpreenderam com a frase. Não sabia o que era asma ou tratamento, mas tinha a certeza de que não gostava de injeção. Uma por semana. Normalmente, pai e mãe diziam-lhe que não doía, mas hoje ele estava experiente. "Mas porque vai chorar? Você é tão forte! Semana passada você nem chorou. Depois, a gente sai e toma um picolé.", disse mãe. Reforçou desafiadoramente: "Hoje, eu vou chorar!", convicto de seus ideais. Desceu do carro e caminhou de mãos dadas entre os pais. Mãe tentava demovê-lo. "É só uma picadinha de formiguinha, não dói". Nada falava. Ao chegar perto, viu a fila com outras crianças, o posto parecia estar mais cheio do que de costume. Algumas até brincavam e riam em sua ignorância (ou coragem, não sabia), outras choravam assim que saiam da sala maldita, a qual todos aguardavam entrar. Pobres coitados! Sentiu-se apreensivo e pediu para ficar no colo. Mãe não lhe recusou e continuou sua ladainha. Ele estava impassível naquele dia, e não dava atenção ao que mãe lhe dizia. Era todo apreensão, atento e torcendo para que nunca chegasse a sua vez, mas no fundo sabia: era inevitável. Ouviu a moça de branco chamar-lhes: "Mãe, é a vez de vocês", apontando-lhes o dedo. "É a de asma", disse mãe ao entrar na sala. E, logo, comentou com a outra moça de branco, como quem contava uma anedota: "Ele disse que hoje vai chorar". A moça riu e falou: "Vai nada, esse menino corajoso, é só uma picadinha de formiguinha". Respondeu: "Dói sim.", dando a seriedade merecida ao momento. Logo, ela escondeu o riso com a máscara branca, e tirou sua agulha de um isopor, com o vidrinho. Puxando o líquido da ampola, pediu que lhe mostrasse o braço. Ele não se recusou, senão ajudou. Levantou a camisa com pesar e olhos fixos nos olhos de seu carrasco. Logo, sentiu o ferrão do escorpião perfurando sua pele, o veneno gelado e ardido adentrando seu corpo. Deu um grito fino e derramou duas lágrimas. Olhou para todos, e logo, voltou o rosto para mãe e disse de modo provocador, com uma voz cheia de tristeza: "chorei".

Lucas Holanda
periferiadomundo

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Serpente



Será que a serpente sente
que foi uma condenação
arrastar o seu duro ventre
entre as folhas secas no chão?

Será que ela está consciente
de seu tamanho pecado
e ainda guarda dormente
na boca a língua do Diabo?

Será que se arrependeu,
por isso ela se fere:
como um castigo de Deus
arranca a própria pele?

Será que ainda tem conversas
escusas com Satanás?
Se juntam todas as terças
e criam pecados mortais?

Será que ela se enrosca
em seu tridente medonho?
E tem carícia nas costas,
riquezas, como num sonho?

A serpente só se importa,
na verdade, com sua toca
e com sua vítima morta,
espremida toda torta,

dando uma boa refeição.
O seu ataque sorrateiro
não é por outra condição,
com o seu bote certeiro

ou aleja ou mata o cristão.
Médico, padre ou coveiro
sabem que não há salvação
se ela está num oitizeiro,

pois neste dia tão fatídico
não terá em qualquer lugar,
nenhum soro anti-ofídico
que consiga lhe curar.

Mas toda e qualquer serpente
sabe, em seu rastejar
sinuoso e intermitente,
quando ficar ou avançar.

E gosta de ser serpente,
prefere o áspero piso
a ter de ser como a gente
que mente forçando o riso.

diretamente da periferiadomundo

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

...engarrafado.


Há dias em que o vermelho do semáforo
não entende teus anseios de liberdade.



diretamente da periferiadomundo

quinta-feira, 26 de julho de 2012

SNIPER


A palavra atira o seu projétil.

Sibila 

no entendimento.

Se bala:

sílaba! 




diretamente da periferiadomundo

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um poeminha curto II



O único problema de ser
só mais um sob o sol
é, às vezes, se esquecer
que a chuva canta em si bemol.






diretamente da periferiadomundo

domingo, 15 de julho de 2012

Madeira


Cai madeira, cai madeira!
Quanta besteira
é derrubar uma floresta inteira.

Cai madeira, cai madeira!
Quanta besteira
é estuprar a selva com uma escavadeira.
Cai jatobá, cai jaqueira,
corta o jagube, a madureira
e lá de longe eu a esperar:

Cai madeira, cai madeira!
Quanta besteira
é queimar o tronco da amoreira
ou duma trepadeira,
que já carrega em sua semente
o clarão de uma fogueira.

Cai madeira, cai madeira!
Quanta besteira
é destroçar o interior de uma figueira,
da chacrona ou da aroeira,
que cura a cabeça e a bicheira,
o corte e a asneira.

Melhor será ter mais soja e parreira,
mais prédios, mais bancos, mais cadeiras,
mais gente a viver na Tamarineira,
mais cápsula, mais motos, mais pedreiras
nos corações de homens enterrados
e chorados por velhas carpideiras.

Cai madeira, cai madeira!
Quanta besteira!
Melhor seria plantar só bananeira
para ver se o mundo, pela vez primeira,
vá pra um lugar que nunca se esqueça
que melhor seria estar de ponta-cabeça.


Lucas Holanda

terça-feira, 22 de maio de 2012

Tormenta no Planeta Vermelho

                                             a D. Everson e os demais marcianos por demais


A chuva ácida de Marte
corrói os meus pensamentos,
destrói concretos-momentos
e espalha ao léu suas migalhas

com o passar de seu tempo
é a tempestade que entalha
desertos, moinhos de vento
e carrancas pelas muralhas

Então, mostro a carne nua
espero que me moa o osso,
exiba o cérebro exposto
e eu peça: “Vem! Me destrua!”

Mas se tu não estás disposto
a dissolver-te em tua arte,
não provas seu amargo gosto,
por nojo, nem tiras a luva,
é melhor não vir a Marte
sem a tua capa-de-chuva.




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domingo, 13 de maio de 2012

VIsão Periférica: Bonobos

Compartilho noventa e oito porcento de toda minha existência com os bonobos. Até semana passada, nem sabia o que era um bonobo. Descobri que, assim como eu, o bonobo é uma espécie de macaco africano sem rabo, tal qual o chimpanzé e o gorila.
Temos mais em comum do que eu mesmo poderia prever com um olhar menos atento. Ainda assim, não são meus parentes mais próximos. Tudo indica que o chimpanzpe ainda está entre nós. Somos primos, mas não nos conhecemos.
Admiro os bonobos e não consigo duvidar deles. Eles não costumam enganar-se. Não mentem olhando nos olhos uns dos outros. Não enforcam seus semelhantes usando seus polegares opositores.
Alguns outros parentes meus, bem mais próximos infelizmente, justificam serem fruto de um tal barro divino. Por conta disto, teriam sido feitos a imagem e semelhança bizarra de um certo criador que soprou-lhes a vida por suas narinas, rejeitando completamente os coitados dos bonobos. Sendo assim, seríamos em algo superiores a bonobos, chimpanzés, gorilas etc.
Então, pobre criador que decidiu construir uma criatura tão digna de pena. Imagem e semelhança em quê? Em barro? Em alma? Em ódio, rancor e guerra? Pobre criador estúpido que ao criar seres tão burros e incapazes só comprovou sua própria incapacidade e estupidez. Talvez se o criador fosse um bonobo, a história da humanidade fosse bem diferente.
Pobre bonobo que é parente de um ser tão mesquinho como eu.

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quarta-feira, 2 de maio de 2012

PSICOPOETA

Não mimo o verso, sou poetassassino.
Degolo o que parece alexandrino.

Amputo o soneto, mato em haicai,
torturo o verso-livre mais e mais;
as penas que tive, as dissemino

e espero que tenhas todas iguais.
Que é para ver se teu sangue me lava,
levando essa dor em tripa e palavra.






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terça-feira, 1 de maio de 2012

Visão Periférica: Kafka de Crumb



Depois de uma longa ausência, publico aqui mais uma Visão Periférica. Desta vez serei curto o suficiente para resumir o meu texto em poucas palavras: leiam Kafka de Crumb!






No entanto, sei que preciso explicar-lhes do que se trata. Bem, Franz Kafka dispensa apresentações, é um dos maiores gênios literários que já passaram pela face desta terra esquisita. Atormentado e vivendo com seus pais até o final de sua vida, não publicou nada e quando morreu pediu a seu melhor amigo que queimasse praticamente tudo o que tinha feito. Para nossa sorte, o amigo tratou de editar e publicar cada linha e assim chegaram até nós textos como O Processo, A Metamorfose e Um Artista da Fome, só para dar alguns exemplos.
Por outro lado, Robert Crumb é um pouco menos conhecido do grande publico, no entanto isso não o faz para nada menos genial. Crumb é o que se pode chamar de um patrimônio vivo dos quadrinhos e o maior expoente daquilo que um dia se chamou quadrinhos underground.
Dono de um traço muito característico e usando apenas nanquim e bico de pena, ele recria a vida de Kafka, seus tormentos cotidianos e reconta também alguns de seus principais contos com seu tom sombrio e único. Traz também o excelente texto de David Mairowitz, que dá um tom pouco usual a biografia, pois ela é não linear e está repleta de tentativas de demonstrar qual era o imaginário que Kafka havia se encontrado previamente. Uma obra digna de usar o título de kafkiana.
Por isso, se tiverem a oportunidade leiam o quadrinho. Vale a pena ler tudo assinado por Franz Kafka. E vale também muito ler qualquer coisa que carregue o nome de Robert Crumb. Não é todo dia que vemos dois gênios de tamanho quilate reunidos .



diretamente da periferiadomundo

terça-feira, 13 de março de 2012

Quatro sonetos-amputados de deserto e ódio.

           I

Caminho neste deserto de abril,
arrasto meu cadáver branco-anil.

O sol torra minha cara imbecil,
há sangue seco em meu nariz quebrado
e ressentimento em meu olho vidrado.

Nas areias, vejo o enésimo cantil,
- Talvez nele haja um gênio ou um anjo alado...
Não. Tal qual meu corpo está vazio.

           II

Carrego meu peso morto nas costas...
Na duna, escorrego pela encosta.

Caímos ombro a ombro e nos encaramos,
olho a bocaberta com que falei...
já não importa ter sido poeta ou rei...

Minha pele mais parece um pano,
Acaricio a face com desengano:
não posso mais retroceder, eu sei!

           III

Resta seguir até um oásis qualquer...
E vago incrédulo, como São Tomé...

Busco água, não para matar a sede,
pois ela já me matou sem piedade,
nem se importou com minha pouca idade.

Busco água e um rio com pradaria verde,
Onde possa recordar, me vingar.
Lá, me dissolver e o contaminar.

           IV

E, assim, quando me tornar diarreia,
serei mais que da vingança uma ideia.

E matarei talvez todos teus filhos,
contaminarei plantações de milho,
nesta  minha tão impiedosa reestreia.

E, no desfecho de minha sombria ópera,
todos sentirão sem mover um cílio
a dor mais terrível de minha cólera.

diretamente da periferiadomundo

sexta-feira, 2 de março de 2012

VISÃO PERIFÉRICA: Conversas com o Imbuá

Há de se entender que o começo do imbuá não é sua cauda, afinal de contas, não é com a cauda que ele conta suas histórias. Confesso, porém, que já escutei uma ou duas histórias contadas por caudas indiscretas de um ou outro, mas hoje essas coisas mudaram. Os imbuas não tagarelam mais com todas as partes do seu corpo. Eles se tornaram mais reservados. Soturnos. Arredios.
Você já notou que não é mais tão fácil encontrar os imbuas como quando éramos crianças, Fernando? Acho que eles aprenderam a se esconder de nós.
Lembra-se quando escutávamos os seus estalos embaixo de nossos pés? Lembra-se de quando juntávamos cinco ou seis deles e queimávamos numa fogueira?
Como éramos maus no auge de nossos nove anos. Éramos os senhores da vida e da morte. Podíamos fazer de tudo. Fazíamos nossa própria inquisição de abelhas, formigas, lesmas ou quaisquer outros seres que chamávamos genericamente de “insetos”, classificação esta que determinava basicamente tudo o que não tinha osso, creio eu, assim como os camarões... Não. Os camarões eram de água, então eram meio que “peixes”.
Tudo passava por um julgamento. Rã não era inseto. Calango também não. Passarinho também não, claro.  Estes eram “bichos”, que é algo completamente diferente de “inseto” e de “peixe”.  Por isso, mereciam nossa clemência: um apedrejamento piedoso do seu badoque, que parecia ter mira a laser e sempre acertava as cabeças das lagartixas; enquanto o meu, pouco acurado, deixava-as na maior parte das vezes escapar.
Mas os insetos... ah... eles não sabiam o que lhes esperava... Arrancávamos patas, perfurávamos os seus corpos com gravetos e assistíamos ao espetáculo da morte em nosso jardim.
Eles eram só “insetos” e nós, deuses do jardim.
E sempre havia aquele grito que movia os nossos mais primitivos instintos: “achei um.” Nossos preferidos eram os imbuas. Estranha predileção esta, que nos fazia arrancar suas cabeças, tostá-los até que virassem um estranho caracol de carvão e senti-los, depois, estalando-se embaixo de nossos pés. Pobres diabos. Morriam sem saber o porquê, sem nunca ter feito um nada qualquer, sem que o universo se desse por conta dele. Só nós e o seu trágico fim.
Alguns contavam-nos suas histórias a fim de tentar reduzir nossa fúria ou conseguir marejar nossos olhos. Vãs tentativas. Frustradas todas elas. Todos insetos sabem que somente duas coisas podem trazer lágrimas aos olhos de um deus aos nove anos: uma boa surra ou ferroada. E, enquanto, mãe ou qualquer animal não consiga fazer nenhuma delas, precisavam sujeitar-se a nós.
Mas hoje essas coisas mudaram, não foi mesmo, Fernando?! Não há mais prazer algum em torturar uma criatura tão indefesa quanto essa. Não há mais prazer em matar. Essas coisas ficaram na infância. A morte era um jogo, uma brincadeira como outra qualquer, como jogar bola ou correr. Recorda-se como corríamos, no meio da tarde, as gargalhadas.
Sinto tanta saudade daquele tempo, irmão. Sinto falta dos seus olhos travessos e do seu sorriso cúmplice impossível de copiar. Já tentei desenhá-lo tantas diversas vezes, mas nunca fica bom. Tentei sem sucesso encontrá-lo em alguma foto. Não que você não fosse muito risonho; de fato, você sorriu sempre dentro de um nível saudável para uma criança de sua idade e as fotos mostram isso. Só que nenhum de nossos antigos álbuns guarda esse sorriso que me lembro em seu rosto tão anguloso, tão parecido com o de pai. Tento usar-me como modelo. Ponho-me em frente ao espelho tentando reproduzir algo daquele seu sorriso, mas sempre me sai falso, estranho ou velho demais. Não é como o seu. Gostaria de ser um pintor de verdade para fazer exatamente como eu me lembro. Mas não foi isto o que me tornei. Nem isso, nem astronauta.
As coisas mudaram.  Os tempos passaram, marcaram meus anos no traçado de minha testa e nos cabelos que estão mais esparsos. Os dias pararam de demorar tanto. Agora eles aceleram que nem Senna... não... que nem o Flash. E, de repente, quando olho para trás, outros dez anos se foram e não tivemos notícias um do outro.
Lembro-me de como você arrancava as pernas: uma a uma do imbua. Não existia no céu ou na terra maior torturador que você, Fernando! Nada era páreo para a sua sede de vísceras esbranquiçadas. Nem o seu caracol nem ninguém poderiam proteger o pequeno ser.
Mas as coisas mudaram muito. Disseram-me, um dia desses, que as pernas finas de alguns podem até transformar-se em duras agulhas que perfuram com facilidade a sua pele. Em meu ceticismo, duvidei que pudesse ser verdade. Obviamente, deveria se tratar de mais uma dessas coisas idiotas que gente vê na tevê. Duvidei até ter o primeiro contato com um desses seres vingativos que me atacou e deixou toda uma bochecha cheia de espinhos que mais pareciam um cacto. Demorei dois dias encontrando um e outro espinho ainda perdido na cara, mesmos depois de catar com uma pinça.
Esses não os mesmos imbuas daquele tempo. O imbua, entre os insetos, era o mais pacífico de todos, como ele só uma criatura que ironicamente deu-se por chamar soldadinho. Verdadeiros budas, frente a tudo o que lhes fazíamos. Se fossemos hindus, teríamos muito kharma para queimar... Talvez ainda tenhamos. E toda essa distância de nossas solidões seja parte disso. Será?
Será que tudo o que nos aconteceu foi parte do kharma ganho em nossa inocência macabra? Pobres diabos de nós se houver outra vida. Voltaremos como parasitas, talvez uma tênia ou uma barata ou um fungo. E teremos que rastejar, morar em esgotos ou intestinos humanos, talvez de porcos... sobreviveríamos talvez a um holocausto nuclear, coisa que nenhum de nós dois agora poderíamos fazer. Mas somente se os deuses forem tão cruéis quanto éramos... Ah! Fernando, ah! Aí voltaremos como imbuas, no quintal de um garoto por setenta vezes.
Digo setenta porque considero já estar pagando boa parte deste kharma nesta vida agora. Tudo o que nos aconteceu, Fernando. Éramos tão jovens.
Como aquilo aconteceu? Você se lembra? Eu não consigo me lembrar. Será que foi aquela noite depois do jantar, que você ficou com aquele seu olhar distante no jardim? Ou foi quando pai trouxe aquele disco que tinha aquela música que você gostou tanto? Será? Será que foi a música que mudou tudo? Ou fui eu? Talvez a culpa seja minha, não sua, nem de deus, Fernando.
Talvez eu seja, Fernando, o único culpado. Eu tive que adquirir esse tom meio que cerimonial em minha voz. Eu tive que remendar meus pensamentos mais confusos para tentar nos explicar. A culpa deve ser minha e, por isso, hoje, estamos tão separados e sós. Não seria honesto culpa-lo. Não foi culpa sua.
Seria humano culpar os deuses, pois fomos deuses na infância e aprendemos bem o que eles fazem. Conhecemos suas benevolências, caprichos e sorrisos. Mas talvez, os deuses tenham outra tarefa de casa por hoje.
Deve ter sido minha culpa.
Eu deveria tê-lo segurado enquanto girávamos, eu poderia ter segurado você. Talvez você não tivesse voado para tão longe.
Mas os imbuas ao enrolar-se em caracóis tem aquela triste tendência de contorcer-se em volta de sua cabeça, protegendo-a. Tal qual nós fazemos em pânico, quando caímos no chão. Quando choramos e soluçamos.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Dois poemetos à beira mar

DA SOLIDÃO

Um bote à deriva
na amplidão do mar,
e aquela sensação
claustrofóbica
tão cheia de si mesmo.

FINITUDE 

Deixo a água me molhar,
arrasta-me sua correnteza
e, lá no fundo, tenho a certeza
de que eu não sou o mar.

diretamente da periferiadomundo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Visão Periférica: CONCRETO E EU

Ontem, após o término de meu expediente, enquanto aguardava o ônibus na Rua da Aurora, fui atacado por um poste. Estava distraído, observando os pescadores retirarem seus peixes do leito podre do Capibaribe e, de seu mais alto sarcasmo, sem mais nem menos, o poste resolveu me nocautear e abrir meu supercílio. Seu murro-concreto cortou, rasgou feio.
Sem entender, fiquei no chão, aguardando uma explicação, olhando a altura de seus fios, estarrecido. Ele, em sua solidez, voltou a ignorar-me, por mais que eu urrasse de dor como quem exigia uma palavra qualquer. Permaneceu impassível, arrogante.  Nem me olhava o desgraçado. As pessoas que observaram tudo, nada fizeram. Tinham umas cinco, além de mim, e elas nem me socorreram, nem reclamaram com o bastardo. Ficaram simplesmente me olhando, atônitas, como se fosse culpa minha provoca-lo. Logo eu, que nada absolutamente fizera para atrapalhar a sua aparente tranquilidade inumana. Desta forma, compreendi que não há solidariedade humana quando o agressor não tem coração.
Por pura covardia e com o único intuito de fugir daquele lugar infernal, tratei de subir no primeiro ônibus que apareceu.
O centro da cidade é bem complexo. O barulho é constante, a poluição, a insegurança, a inoperância da polícia combinados ao ir e vir constante das motos que zigzagueiam costurando os carros e ônibus numa imensa colcha de retalhos caoticamente tão comum aos centros urbanos latino-americanos é a voz de todo o dia. Obviamente, não é um ambiente que favoreça a tranquilidade e a paz de espírito. Todos gritam, xingam, brigam ou matam-se nas ruas. O estresse não poupa ninguém, nem avenidas, nem prédios, nem postes.
Não é a primeira vez que algo assim me acontece. No ano passado, enquanto voltava de uma palestra e conversava com amigos, o piso do estacionamento da universidade passou-me uma rasteira e ainda me deu uns dois ou três chutes. Dois amigos me socorreram, perguntaram se eu estava bem, porém nada fizeram para impedir o ataque. Não os culpo, realmente é difícil prever algo assim. A ferocidade do ataque, porém, rasgou-me uma bela camisa da qual gostava muito, machuquei os braços tentando me defender e, ainda, marquei minha boca com uma cicatriz que carrego até hoje. Levei três pontos.
Entrei no ônibus ensanguentado, achando que seria a última vez que algo parecido me aconteceria. Me enganei.
Alguns amigos também me contaram algumas coisas similares, só que naquele tom de segredo, meio cerimonial, com um certo receio de estarem enlouquecendo. Eu, diferentemente, conto-lhes tranquilo, pois para mim a loucura é o menor dos males, já que não pode ser medida numa escala quantitativa real, como litros, quilos ou metros. Alguém, portanto, só pode ser um pouco ou muito doido, sendo isso um critério bastante subjetivo. O poste, por outro lado, tinha bem uns cinco metros e para lá de uma tonelada de puro aço e cimento e agiu com uma absurda covardia frente a minha baixa estatura.
Preocupa-me muito esses ataques cada vez mais constantes que os objetos nos fazem. Já não bastaria estar preocupado com as contas atrasadas, com o ladrão que pode levar todo o meu salário que acabei de sacar no banco, com a briga que tive com a mulher ou mesmo com a torração de saco no trabalho, a Urbe decide brindar-me com uma preocupação a mais: ela própria.
Uma alternativa talvez seja uma blindagem, recurso muito usado pelos habitantes das mais altas camadas sociais. Lá, em seu planeta pessoal, blindam-se por completo: carros invioláveis, vidros inquebráveis, casas impenetráveis; alguns cobrem todo o corpo com platina, não deixando de fora nem o aristocrático nariz. Eu, no entanto, só possuo os recursos de um trabalhador comum e de um poeta-liso. Por mais que alguns românticos possam alegar os benefícios deste último, o fato ocorrido comprova que meus delírios poéticos pouco me armam contra a concretude do raivoso Recife do pleno século XXI.
Preciso andar menos distraído. A cidade ri de meu desleixo comigo mesmo e de minha contemplação. É muito complicado conciliar todo esse caos interno tão evidente com o externo, e a Urbe entende isso muito bem. Sabe, só de me olhar, quais são minhas fraquezas e inconsequências e se aproveita, sem nenhum pudor.




diretamente da PERIFERIA DO MUNDO



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DARWIN

Por um descuido
esmago um sapo.
Em minha mente
fica seu retrato.
Ficam suas tripas
em meu sapato.
Enquanto limpo
o seu substrato,
firmamos um
só mudo pacto:
adapte-se.


(diretamente da PERIFERIA DO MUNDO)