Viajantes Interplanetários

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sábado, 19 de junho de 2010

TRÊS TESOUROS PERDIDOS

      
          Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X… voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e… dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.
          Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:
          — Senhor, eu sou F…, marido da senhora Dona E…
          — Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X…; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E…
          — Não a conhece! Não a conhece! … quer juntar a zombaria à infâmia?
          — Senhor!…
          E o sr. X… deu um passo para ele.
          — Alto lá!
          O sr. F… , tirando do bolso uma pistola, continuou:
          — Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão!
          — Mas, senhor, disse o sr. X…, a quem a eloqüência do sr. F… tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?…
          — Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?
          — A corte à sua mulher! não compreendo!
          — Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira.
          — Creio que se engana…
          — Enganar-me! É boa! … mas eu o vi… sair duas vezes de minha casa…
          — Sua casa!
          — No Andaraí… por uma porta secreta… Vamos! ou…
          — Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo…
          — Não; não; é o senhor mesmo… como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer… Escolha!
          Era um dilema. O sr. X… compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.
          Surgiu, porém, uma objeção.
          — Mas, senhor, disse ele, os meus recursos…
          — Os seus recursos! Ah! tudo previ… descanse… eu sou um marido previdente.
          E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:
          — Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?
          — Para Minas.
          — Oh! a pátria do Tiradentes! Deus o leve a salvamento… Perdôo-lhe, mas não volte a esta corte… Boa viagem!
          Dizendo isto, o sr. F… desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira.
          O sr. X… ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.
          No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F… para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora.
          Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:
          “Meu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P… Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. — Tua E…”
          Desesperado, fora de si, o sr. F… lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.
          — Era P… que eu acreditava meu amigo… Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X…, subiu; apareceu o moleque.
          — Teu senhor?
          — Partiu para Minas.
          O sr. F… desmaiou.
          Quando deu acordo de si estava louco… louco varrido!
          Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:
          — Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas… que bem podiam aquecer-me as algibeiras!…
          Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.


Machado de Assis

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E não esqueça! Todo sábado, uma nova overdose semanal de cajuína:
    

2 comentários:

  1. Machado e seu tema recorrente: a traição, especificamente, da mulher.

    Excelente, Caju!!! :)

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  2. Não conhecia esta do Machado.
    Engraçada também,
    fiquei meio que com um nó na cabeça com estes monte de letras, F X E , enfim.

    Massa!

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