Viajantes Interplanetários

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

CONFRONTOS E CONFLUÊNCIAS

          Depois de uma pausa involuntária devido às ocupações extra-poéticas desse que vos fala, e depois de duas semanas sem poemas (mas com Raul Seixas & Sérgio Sampaio e Pink Floyd em versões de dub e brega), a coluna CONFRONTOS E CONFLUÊNCIAS volta a pôr poetas no palco nessa quinta-feira. E não são quaisquer poetas, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar entram em cena entremeados com os seus galos.
          Cada um com suas particularidades e enfoques específicos, os galos entram em cena para o combate. Há uma notável confluência entre ambos: JCMN afirma que: um galo sozinho não tece uma manhã, bem como Gullar: vê-se o canto é inútil. Como o POETAS DE MARTE não vai fazer nenhuma aologia às brigas de galo, deixamos o leitor com um confronto muito mais saudável. Evoé!


TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

*

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


(João Cabral de Melo Neto)


GALO GALO

O galo
no saguão quieto.

Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.

De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.

Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio
— que faço entre coisas?
— de que me defendo?

Anda
no saguão.
O cimento esquece
o seu último passo

Galo as penas que
florescem da carne silenciosa
e o duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura?

Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora?

Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório?

Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa. 

Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito. 

Vê-se o canto é inútil. 

O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira! 

Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
        não seria tão rouco
e sangrento. 

Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.


(Ferreira Gullar)
   

3 comentários:

  1. Boa Caju... O galo do João é o campeão - esse p mim é um dos melhores poemas dele

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  2. Vocês falaram tanto em galo que D.Carminha viúva do galo(Enéas Freire/Galo da madrugada),faleceu no dia seguinte(10/12).Pareceu um canto de anunciação

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