Viajantes Interplanetários

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domingo, 22 de janeiro de 2012

Visão Periférica: CONCRETO E EU

Ontem, após o término de meu expediente, enquanto aguardava o ônibus na Rua da Aurora, fui atacado por um poste. Estava distraído, observando os pescadores retirarem seus peixes do leito podre do Capibaribe e, de seu mais alto sarcasmo, sem mais nem menos, o poste resolveu me nocautear e abrir meu supercílio. Seu murro-concreto cortou, rasgou feio.
Sem entender, fiquei no chão, aguardando uma explicação, olhando a altura de seus fios, estarrecido. Ele, em sua solidez, voltou a ignorar-me, por mais que eu urrasse de dor como quem exigia uma palavra qualquer. Permaneceu impassível, arrogante.  Nem me olhava o desgraçado. As pessoas que observaram tudo, nada fizeram. Tinham umas cinco, além de mim, e elas nem me socorreram, nem reclamaram com o bastardo. Ficaram simplesmente me olhando, atônitas, como se fosse culpa minha provoca-lo. Logo eu, que nada absolutamente fizera para atrapalhar a sua aparente tranquilidade inumana. Desta forma, compreendi que não há solidariedade humana quando o agressor não tem coração.
Por pura covardia e com o único intuito de fugir daquele lugar infernal, tratei de subir no primeiro ônibus que apareceu.
O centro da cidade é bem complexo. O barulho é constante, a poluição, a insegurança, a inoperância da polícia combinados ao ir e vir constante das motos que zigzagueiam costurando os carros e ônibus numa imensa colcha de retalhos caoticamente tão comum aos centros urbanos latino-americanos é a voz de todo o dia. Obviamente, não é um ambiente que favoreça a tranquilidade e a paz de espírito. Todos gritam, xingam, brigam ou matam-se nas ruas. O estresse não poupa ninguém, nem avenidas, nem prédios, nem postes.
Não é a primeira vez que algo assim me acontece. No ano passado, enquanto voltava de uma palestra e conversava com amigos, o piso do estacionamento da universidade passou-me uma rasteira e ainda me deu uns dois ou três chutes. Dois amigos me socorreram, perguntaram se eu estava bem, porém nada fizeram para impedir o ataque. Não os culpo, realmente é difícil prever algo assim. A ferocidade do ataque, porém, rasgou-me uma bela camisa da qual gostava muito, machuquei os braços tentando me defender e, ainda, marquei minha boca com uma cicatriz que carrego até hoje. Levei três pontos.
Entrei no ônibus ensanguentado, achando que seria a última vez que algo parecido me aconteceria. Me enganei.
Alguns amigos também me contaram algumas coisas similares, só que naquele tom de segredo, meio cerimonial, com um certo receio de estarem enlouquecendo. Eu, diferentemente, conto-lhes tranquilo, pois para mim a loucura é o menor dos males, já que não pode ser medida numa escala quantitativa real, como litros, quilos ou metros. Alguém, portanto, só pode ser um pouco ou muito doido, sendo isso um critério bastante subjetivo. O poste, por outro lado, tinha bem uns cinco metros e para lá de uma tonelada de puro aço e cimento e agiu com uma absurda covardia frente a minha baixa estatura.
Preocupa-me muito esses ataques cada vez mais constantes que os objetos nos fazem. Já não bastaria estar preocupado com as contas atrasadas, com o ladrão que pode levar todo o meu salário que acabei de sacar no banco, com a briga que tive com a mulher ou mesmo com a torração de saco no trabalho, a Urbe decide brindar-me com uma preocupação a mais: ela própria.
Uma alternativa talvez seja uma blindagem, recurso muito usado pelos habitantes das mais altas camadas sociais. Lá, em seu planeta pessoal, blindam-se por completo: carros invioláveis, vidros inquebráveis, casas impenetráveis; alguns cobrem todo o corpo com platina, não deixando de fora nem o aristocrático nariz. Eu, no entanto, só possuo os recursos de um trabalhador comum e de um poeta-liso. Por mais que alguns românticos possam alegar os benefícios deste último, o fato ocorrido comprova que meus delírios poéticos pouco me armam contra a concretude do raivoso Recife do pleno século XXI.
Preciso andar menos distraído. A cidade ri de meu desleixo comigo mesmo e de minha contemplação. É muito complicado conciliar todo esse caos interno tão evidente com o externo, e a Urbe entende isso muito bem. Sabe, só de me olhar, quais são minhas fraquezas e inconsequências e se aproveita, sem nenhum pudor.




diretamente da PERIFERIA DO MUNDO



10 comentários:

  1. Tás levando surra por aí e jogando o cascalho que bateu no poste, é doido?

    Mas, massa. No coração periférico da maior cidade pequena do mundo. Me veio à cabeça um poema do patrono do blog, D.Everson*. E uma boa trilha é o Passeio do Belchior.

    ___________________
    *Quem ficou curioso é só baixar OS TEIMOSOS E A POESIA DO CONTRA (aqui mesmo na barra lateral do blog) que o poema está lá.

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  2. Antagônico, não? Por raiva do poste, você postou!

    Caro amigo, aqui no Rio a urbe nos ataca com bueiros que nos arremessam a longas distâncias!

    Declaremos guerra!!(rsrsrs)

    Muita Paz!

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  3. SELVA DE PEDRA

    Na urbe,
    Tudo urge,
    E ruge...

    Francismar Prestes Leal

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    1. acho que esse texto nos trouxe a tona mais um cronista urbano, gostei para caralho do texto - mesmo que ele tenha lhe ferido a cara, mas você usou a mesma emperobadamente para presentiar o planeta vermelho com essa bela narrativa de quem sabe parar e olhar para o mundo ao redor,a cidade, ou melhor, ainda se destrair com coisas nataruais como um pescador e sua rede. estamos ilhados em nosso trabalhos tamanho é o vício de nosso estomâgo que sempre precisa ser alimentado - juntamente com outras idiotices capitalistas carregadas de concreto, sexo e "fama", dinheiro, sucesso. O poeta por tentar ser anormal em meio a essa "urbe" normal tem de pagar com um coice de um poste, com um coice da vida. Evoé Lucas - e que sua cabeça seja dura como os postes! kkkkk

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  4. Muito bom este conto/cronica.
    Um abraço. Tenhas uma linda semana.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Respostas
    1. inoperancia da policia, ele falou? queria que ele estivesse trocando tiros na rua com bandidos? cuidado ao comentar algo,é fácil falar mal, precisamos é ter conhecimento de causa, usar nosso tempo para ver as coisas positivas que as pessoas faz (policia) e não ficar apenas criticando.

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    2. É, falei sim.
      Nem deveria responder quem não tem cara nem nome, mas não resisti. Encerro, portanto, aqui qlq discussão com vc, anônimo, e com qlq outro q vier falar sobre isto.
      O texto nem era sobre isso, mas talvez seja o tema do próximo, vc me deu uma boa ideia.
      Digo mais, nunca serei eu trocando tiros com bandidos, não como policial, pois não concordo como boa parte de como seus integrantes age, nem tenho vocação alguma para a hierarquia da corporação.
      Acho que não vivemos, pelo menos, na mesma cidade, mas tlvz até no mesmo país. Se a polícia de sua cidade é boa, a da minha não é. Inoperância e corrupção são comuns a instituição que "zela pelo meu bem estar". Claro que tenho cosciência de que não são todos os seus membros, assim como também acredito que haja no Brasil algum político honesto. Nem por isso, quando vejo as "coisas positivas" do Congresso, coloco em panos quentes a canalhice existente. Infelizmente, são as instituições que temos e elas precisam mudar. Coisas boas existem, as más também.
      Só a título de ilustração, Recife é bastante conhecido por possuir grupos de extermínio formados essencialmente por políciais, que EXECUTAM muito bem seu trabalho paramilitar. Sabemos que isso é contra a lei, apesar de alguns fascistóides acharem que isso é um "ganho para o país".
      Minha dúvida é: O que seria ter "conhecimento de causa"? Só pode criticar a polícia quem é policial? Que tipo de sociedade é essa?
      Numa coisa vc tem razão, é muito fácil falar mal da polícia, vou me esmerar da próxima vez, se houver, e detalhar mais. Espero um dia ter muitos motivos para falar muito bem dela.
      Não se preocupe, não costumo jogar simplesmente palavras sem fundamentar minhas ideias, porém meu "conhecimento de causa" não é o de carregar uma arma na citura ou bater na cara de malandro.
      Mas, pelo menos dou minha cara para o policial aí bater.

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