Viajantes Interplanetários

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domingo, 24 de junho de 2012

Cinemarte, por Wesley Moreira de Andrade

Quando os gostos não batem...


Já escrevi algumas vezes aqui no Cinemarte sobre o gosto cinematográfico de cada um, o quanto devemos respeitá-lo etc. e tal. Mas todo cinéfilo também se viu na embaraçosa situação de se encontrar em meio a uma conversa animada sobre filmes onde cada título que é lembrado pelos participantes não lhe chama atenção alguma e você se vê constrangido em responder que “Não, não viu o novo filme do Adam Sandler e que não acha este cara ‘muito louco’ assim”, ou afirmar que “Nicolas Cage apenas tem atuado em filmes que são uma porcaria”. Chega a hora que o orgulho fala mais alto ou você se mantém em silêncio fingindo que concorda com a opinião da sua colega de trabalho ou daquele que se porta como um crítico especialista, em filmes ruins, claro (e que fica boquiaberto quando você contraria a sua visão de cinema ou aquilo que ele considera bom), ou dá um jeito de se afastar daquele papo pseudocinéfilo o quanto antes. 
Como já não bastasse a dificuldade de encontrar pessoas que falem de cinema em suas rodas de conversa (o futebol, o UFC e a novela são unanimidades), acabamos nos frustrando quando elas finalmente ocorrem. Trata-se de uma escassez eterna. Seria ingenuidade demais achar que as pessoas do nada largassem seus afazeres ou aproveitassem a hora do almoço para falarem de Almodóvar, da última polêmica de Lars Von Trier, do clássico de Hitchcock ou daquela obra-prima de Bergman ou Kurosawa.


Quando os assuntos convergem para um trabalho que você tenha adorado (seja o filme de arte que chegou a fazer considerável sucesso nas bilheterias ou quando seu artista favorito é mencionado), você sorri, ajeita-se na cadeira, passa a comentar de filmes que ninguém assistiu, ou assistiu e não gostou ou assistiu e não entendeu, esta interação esfria e toma logo um caminho diverso, pois outro interlocutor vai lembrar-se do último “Velozes e Furiosos”, só para que tudo volte aos eixos. E você fica com aquele semblante sem graça e impassível diante dos outros que riem e recordam-se da cena engraçadíssima ou da fala absurda das personagens da comédia escatológica que tira sarro de todos os lançamentos da temporada.
Não tem jeito, o gosto da maioria nunca será o mesmo da outra parcela, mesmo porque, por mais que ambos almejem o entretenimento, a fruição acontece de forma diferente. As motivações alternam-se na discrepância entre diversão e apreciação.
Cada um com seu tipo de filme, tudo bem, já aceitei a realidade e tenho empatia e simpatia por ela. Como encontrar alguém com os mesmos gostos é uma verdadeira loteria, preserve as amizades que coincidam com a sua cinefilia. Elas serão o seu conforto depois de mais uma rodada de Adam Sandler, Nicolas Cage, As Branquelas tão onipresentes nas conversas anteriores. Finalmente alguém vai entender a sua "solidão" e falar a sua língua...

9 comentários:

  1. Cinéfilo amigo, boa noite!

    É desconfortante passar por esse tipo de situação. Acho inclusive que minha assiduidade na net se dá por não encontrar comumente pessoas que comunguem pelo menos de vinte por cento de meu gosto supostamente cutural ou pretensiosamente intelectual. a verdade é que, desde que assisti, por exemplo, o Anticristo,do Trier, consegui discutir com muito poucos se o longa é a obra-prima do século ou se é uma desgraça total.

    Não quero, com ar superior, longe disso, dizer que existem entes de pouca cultura que me circundam. Não é isso, contudo, como você bem coloca na sua postagem, é dificílimo encontrar alguém que tenha um gosto ao menos parecido com o meu, que discuta Luzes da cidade, O grande chefe, Ben-hur, Irmão sol Irmã lua, etc...

    Recentemente fui, junto com minha irmã, ver último filme de Ridley Scott. Como somos admiradores de ficção científica, ficamos contentes em ver como a trama foi conduzida, nos levando quase aos últimos insatantes achando que tudo seria em vão, quando nos damos conta do final supreendente.

    E aí, vem a decepção triste! Acredito que somente nós dois ficamos satisfeitos. Todos ao redor reclamaram cuspindo despaltérios.

    Em suma, caro Wesley, está complicado agradar a massa se não for através de heróis, matadores, zumbis, comédias idiotas ou carros envenenados rasgando as ruas das metrópolis.

    Fazer o quê!

    Muita paz!

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    1. Caro, Cristiano!

      Incrível como o público está cada vez menos exigente e seu relato sobre o filme Prometheus e a reação da plateia só me deixa chateado (e, claro, mais louco para ver o filme, que ainda não assisti). Pelo visto a blogosfera é o lugar perfeito para juntar estes solitários cinéfilos que não tem com quem trocar impressões sobre os filmes que não viram.
      Ah! Adorei Anticristo, ainda não o digeri por completo mas adorei mais esta provocação de Lars Von Trier que ainda fez de Melancolia o melhor filme do ano passado.´

      Um grande abraço!

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    2. Certamente Wesley, o Anticristo é um filme para se ver com atenuado cuidado. É mister que se leve em consideração que suas cenas são aterrorizantes.

      Digerí-lo é muito complicado!

      Existem alguns idiotas na blogosfera que cismam em acusá-lo de imitador barato de Tarkovski. a eles eu tenho um recado: bom que Trier tente copiar, o que eu não creio, o ue existe de melhor no cinema moderno!

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  2. Wesley,
    Como sou cinéfilo e meio solitário no meu gosto, não tenho com quem conversar e concordo contigo quando diz que a maioria só sabe falar sobre futebol, UFC e novela, nunca assisti uma novela sequer. Por esses dias, casualmente, assisti "Dogville" (pela terceira vez, acho a Nicole Kidman insuperável nesse filme), "Antichrist" e "Melancholia" do Trier, e não tenho com quem trocar algumas opiniões, lamentável.
    Pois é, também sou fã do Bergman e já o disse aqui nesta coluna, infelizmente pouco gente neste Brasil varonil sabe apreciar "O ovo da serpente", por exemplo.
    Abraços, bom domingo e parabéns pelo ótimo texto, JAIR.

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    1. Caro jair,

      O flime Melancolia, do Trier, apesar de ter usado tão pouca tecnologia, para mim está entre os melhores longas de ficção que já vi! A metáfora do planeta homônimo, dando traços de que, se soubéssemos o quão o ser humano pode ser vil, a melncolia acabaria conosco, é simplesmente incrível!

      Não posso dizer que concordo com as atitudes e pontos de vista do diretor dinamarquês, entretanto tenho que admitir que sua sensibilidade ao compor um filme é simplesmente demais. Vi recentemente o segundo da pretensa trilogia: Manderley.

      As pessoas são demasiadamentes complexas.

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    2. Pois é Cristiano, então vamos continuar curtindo o Trier e outros grandes diretores e deixar esses velozes e furiosos para lá, não vale a pena nem comentar qualquer coisa (mesmo desfavorável) sobre eles. Abraços cinéfilos (e cinófilos também se você gostar dos canídeos como eu), JAIR.

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    3. É, Jair, não temos outro caminho senão o usar este ambiente blogueiro para compatilhar olhares e preferências. Melancolia e Anticristo são dois dos mais provocadores filmes dos últimos anos.

      Não tem o que elencar algo que foi o melhor em Dogville, se foi Nicole Kidman, a estética brechtiana, o elenco coadjuvante, o roteiro arrasador...

      Pelo que vejo, Von Trier é uma unanimidade entre os habitantes de Marte hein (coisa que não acontece na Terra rsrs)?

      Um grande abraço!

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    4. Wesley,
      Não assisti "Dogville" por três vezes por causa da Nicole, apenas ressaltei o fato de ela está bem no filme. Acho que esse filme transcende fórmulas e definições simplórias e merece ser visto mais de uma vez porque permite releituras interessantes. Abraços e obrigado por ter comentado meu comentário, JAIR.

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    5. Prezado Wesley,

      foi muito boa sua postagem! Parabéns!

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