Cléo de 5 as
7
Não sou nenhum viciado em drogas lícitas ou ilícitas, mas também tenho as
minhas crises de abstinência. Com filme isto também acontece. Você pode ter até
visto um trabalho há uma hora, porém se este filme não te marcou ou você não
gostou dele, pode-se considerar uma perda de tempo e o corpo e a mente já
passam a te exigir no mínimo um clássico, uma obra-prima mesmo aquela que você
viu inúmeras vezes ou que você elegeu como tal, apesar de todos os outros o
odiarem.Tinha visto no cinema no início do mês passado um blockbuster enfadonho
(não revelo para
evitar a vergonha alheia, mas confesso que fui um tanto quanto obrigado ´por terceiros a vê-lo, para amenizar este constrangimento) desde então só tive tempo para acompanhar uma série (Boardwalk
Empire, um primor de narrativa) cujos episódios de duração inferior menor
que 2 horas se encaixavam perfeitamente na minha falta de tempo. Até que, enfim,
consegui me livrar de certos afazeres e me dedicar a um filme que me desse alguma
satisfação.
O problema é: qual filme escolher?
Tinha algumas opções: como o sono me dominava, minha intenção não era a de
dormir, então um filme clássico, de narrativa linear poderia ser a melhor
pedida, mas há muito que tinha entre os títulos um filme francês de nome
curioso. Filmes franceses por vezes não são de fácil digestão, geralmente
cabeças demais para uma mente preguiçosa como a minha se encontrava neste dia.
Escolhi o caminho das pedras e decidi assistir Cléo de 5 as 7.
O filme é de 1962 e tem a direção de Agnès Varda. Narra duas horas na
vida da cantora Cléo, que aguarda pelo diagnóstico de uma biópsia e se preocupa
e se martiriza com a hipótese de um câncer maligno e da própria morte. Numa
elegantíssima narrativa, somos meio que testemunhas dos anseios desta
personagem, de seus caprichos e até mesmo de sua autopiedade. Um filme que
transcorre perfeitamente numa câmera que não desgruda o olhar da protagonista e
daquilo que a circunda e que ela vê. Inevitavelmente compartilhamos de sua dor,
suas dúvidas, também nós estamos jogados no mesmo turbilhão que ela. O filme
traz frequentemente a lembrança de que estamos acompanhando Cléo de minutos em
minutos (das 17h00 às 17h15, por exemplo). Esta proximidade de tempo torna o
filme mais crível e real (com algumas licenças poéticas, como o momento em que
ela canta “Sans toi” ao som de uma
orquestra que não existe na cena).
Esta busca por verossimilhança traz à tona a velha discussão de quem
imita quem? Vida imita a arte ou arte copia a vida? Os limites estão tão
confusos e obscuros que é difícil determinar. A vida não parece poética, pelo
menos não a enxergamos como tal, no dia a dia, enquanto a arte num geral
apreende esta poesia dos momentos mais fugazes e insignificantes para nós,
distraídas pessoas. Cléo vê-se notada pelas pessoas, fica incomodada com esta
exposição, as cenas que presencia parecem representar o seu pesadelo pessoal,
as companhias não compreendem suas preocupações ou não conseguem acalmá-la.
Quem não se surpreendeu com o mundo enquanto passava
por uma crise? Quão assustador ele foi e quantas respostas trouxe das quais
precisava ouvir? Cléo de 5 as 7 é um tipo de filme que
representa este mundo. Um exemplo de filme cuja simples ideia traz
sempre como resultado algo maior e sublime que a sua proposta inicial, um filme incomum, uma
obra prima para salvar meu fim de semana e amenizar a abstinência ainda não
saciada (chego à conclusão de que as doses cinematográficas precisam ser cada
vez mais cavalares e com menor intervalo de tempo entre uma e outra). Oh vício
que me persegue! E, claro, obrigado Varda!...

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