Viajantes Interplanetários

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sábado, 10 de novembro de 2012

Cinemarte, por Wesley Moreira de Andrade

Cléo de 5 as 7

 
Não sou nenhum viciado em drogas lícitas ou ilícitas, mas também tenho as minhas crises de abstinência. Com filme isto também acontece. Você pode ter até visto um trabalho há uma hora, porém se este filme não te marcou ou você não gostou dele, pode-se considerar uma perda de tempo e o corpo e a mente já passam a te exigir no mínimo um clássico, uma obra-prima mesmo aquela que você viu inúmeras vezes ou que você elegeu como tal, apesar de todos os outros o odiarem.Tinha visto no cinema no início do mês passado um blockbuster enfadonho (não revelo para evitar a vergonha alheia, mas confesso que fui um tanto quanto obrigado ´por terceiros a vê-lo, para amenizar este constrangimento) desde então só tive tempo para acompanhar uma série (Boardwalk Empire, um primor de narrativa) cujos episódios de duração inferior menor que 2 horas se encaixavam perfeitamente na minha falta de tempo. Até que, enfim, consegui me livrar de certos afazeres e me dedicar a um filme que me desse alguma satisfação.
O problema é: qual filme escolher?
Tinha algumas opções: como o sono me dominava, minha intenção não era a de dormir, então um filme clássico, de narrativa linear poderia ser a melhor pedida, mas há muito que tinha entre os títulos um filme francês de nome curioso. Filmes franceses por vezes não são de fácil digestão, geralmente cabeças demais para uma mente preguiçosa como a minha se encontrava neste dia. Escolhi o caminho das pedras e decidi assistir Cléo de 5 as 7.
O filme é de 1962 e tem a direção de Agnès Varda. Narra duas horas na vida da cantora Cléo, que aguarda pelo diagnóstico de uma biópsia e se preocupa e se martiriza com a hipótese de um câncer maligno e da própria morte. Numa elegantíssima narrativa, somos meio que testemunhas dos anseios desta personagem, de seus caprichos e até mesmo de sua autopiedade. Um filme que transcorre perfeitamente numa câmera que não desgruda o olhar da protagonista e daquilo que a circunda e que ela vê. Inevitavelmente compartilhamos de sua dor, suas dúvidas, também nós estamos jogados no mesmo turbilhão que ela. O filme traz frequentemente a lembrança de que estamos acompanhando Cléo de minutos em minutos (das 17h00 às 17h15, por exemplo). Esta proximidade de tempo torna o filme mais crível e real (com algumas licenças poéticas, como o momento em que ela canta “Sans toi” ao som de uma orquestra que não existe na cena).


Esta busca por verossimilhança traz à tona a velha discussão de quem imita quem? Vida imita a arte ou arte copia a vida? Os limites estão tão confusos e obscuros que é difícil determinar. A vida não parece poética, pelo menos não a enxergamos como tal, no dia a dia, enquanto a arte num geral apreende esta poesia dos momentos mais fugazes e insignificantes para nós, distraídas pessoas. Cléo vê-se notada pelas pessoas, fica incomodada com esta exposição, as cenas que presencia parecem representar o seu pesadelo pessoal, as companhias não compreendem suas preocupações ou não conseguem acalmá-la. 
Quem não se surpreendeu com o mundo enquanto passava por uma crise? Quão assustador ele foi e quantas respostas trouxe das quais precisava ouvir? Cléo de 5 as 7 é um tipo de filme que representa este mundo. Um exemplo de filme cuja simples ideia traz sempre como resultado algo maior e sublime que a sua proposta inicial, um filme incomum, uma obra prima para salvar meu fim de semana e amenizar a abstinência ainda não saciada (chego à conclusão de que as doses cinematográficas precisam ser cada vez mais cavalares e com menor intervalo de tempo entre uma e outra). Oh vício que me persegue! E, claro, obrigado Varda!...






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