Viajantes Interplanetários

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sábado, 19 de janeiro de 2013

Cinemarte, por Wesley Moreira de Andrade


O Som ao Redor 








Ao ler a respeito de O Som ao Redor, certamente um dos filmes mais elogiados dos últimos anos, uma unanimidade poucas vezes vista na crítica atual, fiquei na expectativa de assisti-lo e me deparar com um grande filme. O problema é que expectativas muito altas podem não ser correspondidas e a decepção vir logo em seguida bater na porta da sua casa. No entanto, o que aconteceu comigo foi uma frustração às avessas, pois, por mais que esperasse um determinado tipo de trabalho, o que o Kleber Mendonça Filho entregou como filme fugiu, felizmente, a qualquer tipo de definição, ou seja, surpreendeu.
Ao nos apresentar os diversos personagens de uma rua em Recife, Kleber faz um panorama de uma sociedade que se modernizou, mas cujas raízes ancestrais, que definem o nosso país como ele é hoje, permanecem latentes e explodem em diversos momentos. É o Brasil recôndito da escravidão, do abismo entre patrão e empregado, desigualdade social, patriarcalismo e conorelismo, preconceito, pátria cheia de segredos que emergem através dos mais diversos sons que caracterizam e revelam aquela rua e seus relacionamentos interpessoais (gritos de crianças, carros, televisões, latidos, passos, eletrodomésticos). O Som ao Redor, é mais um filme “de clima e atmosfera” do que de um enredo intrincado propriamente dito e isto não é uma crítica negativa e, sim, seu melhor aspecto.


São as sutilezas que ditam a regra neste trabalho incomum em nossa cinematografia (me lembrou um pouco a estranheza causada pelo argentino O Pântano, dirigido por Lucrecia Martel), a tensão e os conflitos aparentemente mínimos que movem as personagens: a mulher que está incomodada com o latido incessante do cachorro do vizinho; o rapaz que trabalha como corretor, neto do homem que é dono de grande parte das residências do bairro, e seu novo relacionamento; o segurança que oferece serviços de proteção da rua, ganhando a confiança dos moradores e um domínio e controle sobre eles também através de sua milícia, entre tantos outros.
Kleber sabe enquadrar perfeitamente qualquer cena (um contraste de casas, prédios, grades, janelas e corredores), propor movimentações sutis sem nenhuma pressa com uma câmera estável (sem aquela tremedeira que tomou conta dos realizadores atuais) que contempla seus personagens, sem grandes rodeios ou ostentações de estilo, tornando-se uma aliada para a estória que conta e não a personagem principal deste trabalho.
O Som ao Redor é um filme que pode soar estranho aos olhos não afeitos a uma narrativa diversa das que vem sendo exibidas no circuito comercial de cinema, mas prende a atenção pela utilização inteligente do som, pela naturalidade dos atores em cena e pelo olhar inédito sobre aquela rua que nada mais é do que um microcosmo do que vivemos e sofremos em nossa sociedade como um todo, não somente no Recife.
 

5 comentários:

  1. Cinéfilo amigo,

    fiquei curioso. Vou conferir assim que puder!!

    Muita paz!

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    1. Assista que você vai gostar bastante, Cristiano!

      um grande abraço!

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  2. Tá aí o filme ainda está em exibição por aqui, fiquei mais curioso ainda - tendo em vista que conheço gente que já trabalhou com o direito, além do que eu vivia esbarrando no elenco quando eu era aluno do Centro de Artes da UFPE

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    1. Mais um motivo para prestigiar este filme, D. Everson!

      O elenco está muito bem.

      Um grande abraço!

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  3. Vou assistir, estou muito curiosa.Obrigada!

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