Viajantes Interplanetários

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ultima Canção do Beco


Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhas,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhas!

Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobre quando,
Pobre, vim morar aqui.

Lapa -- Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmola para os pobres,
- Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vem na porta do templo
De noite se agasalhar.

Beco que nasceste a sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!

Manuel Bandeira, 


Um comentário:

  1. BANDEIRA E O BECO
    Um Manuel Bandeira saudosista
    Acrisola palavras mais inconsúteis
    Onde quer que seu talento assista
    Onde seus versos lhe sejam úteis

    É o beco de sua vida na infância
    Lembrado em versos doces assim
    Beco que será vítima da ganância
    Cujas ações a ele colocarão fim

    Lamenta o poeta já com saudade
    Desse lugar que deixa lembrança
    Por onde chegou com pouca idade

    Onde andou no tempo de criança.
    Sabe que o crescimento da cidade
    Fará no presente pesada mudança.

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