Viajantes Interplanetários

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domingo, 1 de junho de 2014

Cinemarte



Mulheres protagonistas

 Scarlett O’Hara (... E o Vento Levou) e Ilsa Lund (Casablanca), Lola Lola (O Anjo Azul) ou Pina (Roma, Cidade Aberta), Margo Channing (A Malvada) ou Norma Desmond (Crepúsculo dos Deuses), Geni (Toda Nudez Será Castigada) ou Ângela Carne e Osso (A Mulher de Todos) ou Dora (Central do Brasil). O cinema está cheio de filmes que trazem consigo fortes personagens femininas. Não se pretende aqui fazer uma incursão ao passado pois seria abusar demais da memória ao querer resgatar tantos nomes importantes. Fica-se então na contemporaneidade que não deixa de fornecer alguns bons exemplos de protagonistas que unem força e resistência num mundo predominantemente masculino. Ser criança em ambiente de violência e pobreza, ser a única sobrevivente num ambiente inóspito ou alguém consciente do poder de seu sexo, não é tarefa para qualquer um.


Em A Feiticeira da Guerra, Komona (Rachel Mwanza) vive na República Democrática do Congo, porém a sua vila foi invadida por guerrilheiros que a obrigaram a matar os próprios pais e a levaram consigo para participar da guerrilha que conta com outras crianças e adolescentes sequestradas. Nesse grupo, Komona ganha o status de feiticeira após enxergar fantasmas e escapar de um tiroteio contra o exército e torna-se uma espécie de amuleto da sorte para os líderes. Komona conhece o amor, é abusada, engravida e precisa resistir a toda hostilidade daquele ambiente. A miséria deste chocante e ao mesmo tempo poético filme canadense (que, se não me engano, ainda sequer foi lançado no Brasil) lembra a realidade mostrada pelos olhos infantis de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) em Indomável Sonhadora, porém se esse último retrata a resistência cultural de um grupo contra a evolução do progresso capitalista que ameaça inundar um vilarejo precário, o primeiro é a lógica da guerra que passa por cima da inocência e do sonho.


Em Gravidade é a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) que tem que usar de toda persistência para voltar à Terra ao ficar sozinha em pleno espaço após uma nuvem de detritos espaciais destruir a estação espacial em que se encontrava. Ryan Stone perdera a filha no passado e o espaço pareceria um refúgio para ela. Estar na Terra, a princípio, seria encarar as lembranças das quais ela quer evitar. Portanto é da insegurança que sente e da fragilidade inerente à sua personalidade que Ryan deverá extrair uma motivação para não se entregar e retornar ao planeta em que habita, com todos os problemas que ele ainda pode lhe reservar. Ninguém no espaço pode salvá-la (até mesmo o personagem de George Clooney) e interceder por ela, a não ser ela própria. Apesar da direção brilhante do Alfonso Cuarón e dos efeitos especiais, todos estes elementos estão nesta ficção científica ao serviço da protagonista e sua jornada de superação.


Joe (Charlotte Gainsbourg) é uma ninfomaníaca e foi encontrada ferida num beco fétido por um homem solitário a quem ela relata toda a sua trajetória, desde a infância à vida adulta. Joe entra para o time das grandes protagonistas dos filmes de Lars Von Trier: mulheres que se voltam ao grupo em que vivem, convictas de seus valores e objetivos e são reprimidas ou até mesmo sacrificam-se em prol das crenças que possuem. Assim como Seligman (Stellan Skarsgard) diz em determinado momento de Ninfomaníaca (obra dividida em duas partes): a trajetória de Joe não seria tão interessante se fosse um homem a contar as suas façanhas sexuais e suas aventuras amorosas. O fato de ser uma mulher a usar o sexo como uma forma de libertação e dominação inverte tudo aquilo que já está preestabelecido: a visão de mulheres frágeis, delicadas, suspirantes e à espera de um grande amor. Joe é a mulher moderna que compreende o seu poder, não liga para as convenções e busca o próprio prazer antes de tudo (cercando até mesmo suas atitudes com um tanto de frieza). Homens fazem isso? Sim. Mas não são taxados de “vadias” ou “vagabundas” ou “putas”, nem são mal vistos pela sociedade. Joe é um grito solitário, porém autêntica a si mesma, assim como Ryan, assim como Komona.Vidas ficcionais que só a realidade poderia inspirar, mulheres tão fortes como as que conhecemos no dia-a-dia.

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