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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Cinemarte

O Lobo Atrás da Porta e a exploração de um novo gênero no cinema nacional

Leandra Leal e Milhem Cortaz em O Lobo Atrás da Porta

Criou-se o estigma de que cinema brasileiro era só sertão e favela. Depois de que a sétima arte nacional era apenas putaria e palavrão. Este último gerado pela falsa impressão que as dublagens de filmes americanos deixavam de que filme estrangeiro não usava palavras de baixo calão. Hoje em dia as maiores bilheterias brazucas vêm de comédias produzidas, em sua maioria, pela Globo Filmes que traz à tela grande o seu padrão audiovisual importado da televisão.
Uma das chaves para a manutenção do nosso cinema junto ao público certamente é o recurso aos mais diversos gêneros, assim como a produção mundial também o faz. Explorar vieses ainda pouco encenados na telona, como o suspense, por exemplo. Diversificar gêneros e sair do lugar-comum e até mesmo do preconceito em relação à nossa produção cinematográfica pode ser uma saída para aumentar e fidelizar o público, ao menos o que se convencionou chamar de grande público.
O ótimo trabalho de estreia em longas metragens de Fernando Coimbra, O Lobo Atrás da Porta, é um exemplo. Um suspense sutil, bem engendrado, com bons personagens e ótimas atuações que poderiam facilmente chamar a atenção do público e surpreendê-lo. O grande problema que somente os filmes com distribuição feita pela Globo Filmes tem uma divulgação maciça e insistente. Outros contam com a sorte e o boca a boca.
Lembrei-me de O Lobo Atrás da Porta justamente após rever o excelente filme argentino O Segredo dos Seus Olhos, um grande sucesso de público nas bilheterias hermanas e que ainda abocanhou o Oscar de filme estrangeiro de ninguém menos que A Fita Branca de Michael Haneke. A produção audiovisual argentina nos últimos anos tem sido destaque no mundo inteiro, usou a crise econômica como mote para diversas obras, encontrou um tom surpreendentemente universal (sem deixar de ter sua própria identidade) e investiu em gêneros diversos: temos o policial (Nove Rainhas), o filme de arte (O Pântano), o drama familiar (O Abraço Partido), filme de temática GLBT (Plata Queimada), o suspense (o próprio O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella), a comédia (O Filho da Noiva, também de Campanella) entre diversas obras que fizeram a festa dos cinéfilos nos últimos anos. 

O Segredo dos Seus Olhos
O Lobo Atrás da Porta tem um pouco destas características: uma trama levemente inspirada numa história real (ocorrida nos anos 60), com personagens suburbanos do Rio de Janeiro e, o que mais importa, críveis e próximos de nossa realidade, que envolve sentimentos universais como o ciúme, a obsessão, a falsidade e o amor desmedido e ações tão humanas e comuns como a traição (que nunca termina bem, em qualquer estória, em qualquer lugar). O filme prende a atenção com o drama do desaparecimento da filha de Bernardo (Milhem Cortaz) e Sylvia (Fabíula Nascimento) e a aparente culpabilidade da amante dele, Rosa (Leandra Leal). O filme não tem pressa em apresentar os conflitos e, aos poucos, vai revelando os principais segredos e mistérios envolvendo as personagens.

Este longa-metragem premiado acaba sendo uma prova de que é pela universalidade e pela diversidade de gêneros que o cinema brazuca pode finalmente alçar novos voos e atingir um público maior ainda. A intenção aqui não foi só fazer o velho “olha como a grama do vizinho argentino é mais verde”, mas, sim, evidenciar que a exploração de outras possibilidades narrativas faz muito bem ao nosso cinema, algo que já vem ocorrendo de forma gradual com os últimos lançamentos nacionais do circuito comercial.

O Lobo Atrás da Porta

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