Viajantes Interplanetários

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Uma do Verissimo no começo da década de 90:

INTELECTUAIS

Nunca entendi muito bem o que é um intelectual. É alguém que pensa? Todo mundo pensa, mesmo que precise fazer um esforço. É alguém que tem idéias novas, que vive do que pensa? A perfeita descrição de um vigarista profissional, também. Alguém que lê muito? Ler muito, dependendo do tipo de livro, pode substituir o pensamento. Certos livros fazem para a mente o que o respirador artificial faz para o pulmão, enchem de ar para ele pensar que está funcionando. Um erudito não é necessariamente um intelectual. Cultura não é inteligência, inteligência não é cultura e agilidade mental pode ser apenas um dom performático, como mexer as orelhas. Se você se declarar um intelectual e alguém disser "Prove", o que é que você vai fazer? Usar óculos não é argumento, também existe a miopia burra e o astigmatismo sem qualquer redenção cultural. Você tem teses publicadas? Teses são como cheques, meu caro, como é que eu sei que elas têm fundamento? Também não adianta você me dizer uma coisa inteligente, pode ser decorado. E espontaneidade não é prova de poder intelectual, pode ser só reflexo elétrico. Você tem uma reputação como intelectual? Entre quem, outros intelectuais? Quero ver as credenciais deles. Podem ser falsas. Precisamos de provas. DNA. Impressões digitais. Dizem que dedão de intelectual não deixa impressão, deixa arrazoado. Será?
Gramsci escreveu que todo mundo é intelectual mas poucos têm a função de um intelectual numa sociedade. Assim o que define o Intelectual como categoria é a sua função social. Qual é a função social do intelectual gramisciano? O próprio Gramsci (citado por Edward Said no seu último livro, "Representações do intelectual") não ajuda. Diz que há dois tipos de intelectual — iiiihh — : o estático e o orgânico. O que mantém a sua função tradicional de transmissor dos cânones de uma geração a outra e o que se envolve nas lutas da sua geração, e quer ser conseqüente. Mas o intelectual orgânico também tem que respeitar uma tradição: a de, segundo Said, "levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar a ortodoxia e o dogma em vez de produzi-los, não ser facilmente cooptado nem fazer alianças com o PFL". Desculpe, essa última parte não é do Said, só está subentendida. Éfe Agá seria um exemplar intelectual orgânico na concepção de Gramisci se preenchesse todos os requisitos de Said. Nós somos o nosso comportamento, não os nossos títulos.
Mas o que me preocupa mesmo é que pela primeira vez na nossa história vamos ser governados por um sociólogo. Entende? Em vez da gente fiscalizá-lo, ele é que vai estar nos estudando. Éfe Agá não estará fazendo um governo, estará fazendo uma pesquisa de campo. É capaz até de dar certo. Pelo menos vamos todos nos esforçar para não sair mal na tese dele. Eu, no dia da posse, vou pra frente da televisão de banho tomado e gravata.


Luis Fernando Verissimo
 

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