Viajantes Interplanetários

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sábado, 17 de setembro de 2011

VISÃO PERIFÉRICA (N 2) – GUERRA DE HOLANDA


Alguém aí já ouviu falar de Guerra de Holanda?
Guerra de Holanda foi um jornalista, poeta e cronista nascido em 1918 em Santana do Ipanema (AL), mas radicado em Pernambuco desde sua mais tenra infância. Publicou em diversos jornais pernambucanos e escrevia duas crônicas diárias durante muitos anos, uma chamada Política é isso mesmo! e a sua mais popular Bacia de Pilatos, que lhe rendeu um livro póstumo de título homônimo.
É interessante notar que Guerra de Holanda era uma figura muito conhecida até a sua morte em 1967, seus textos muito lidos tanto pela população em geral, como pelos intelectuais pernambucanos. Circulava com desenvoltura entre os poetas e escritores da época, pelos quais era querido e admirado. Tinha entre seus amigos pessoais Mauro Mota (a quem dedica seu segundo livro), Nilo Pereira e, segundo seu filho, o próprio Gilberto Freyre chegou a frequentar a sua casa (mesmo não sendo dos mais chegados).
No campo da crônica, Nilo Pereira chama-o de “Nosso Rubem Braga” no prefácio de seu livro póstumo. Tantos outros, porém, trocavam ideias e elogiavam a sua forma concisa e poética de relatar o cotidiano.
O grande Manuel Bandeira, que dispensa qualquer apresentação, teceu críticas sobre o seu primeiro livro, principalmente a poesia “Prece” que muito lhe agradava.
Em toda sua vida lançou apenas dois livros: Audácia e O Rosto. Quando lançou Audácia tinha apenas 20 anos. Já O Rosto, lançado dez anos depois em 1948, é um livro mais maduro que foi muito bem recebido pela crítica da época.
Você pode estar se perguntando: por que estou falando tanto dessa figura que você provavelmente nunca ouviu falar?
Já explico.
Folheando no final de semana passado alguns livros antigos, encontrei um especial, encadernado em uma capa azul muito delicada. Quando abri a primeira página encontrei a inconfundível letra trêmula de meu já falecido avô. Foi o primeiro livro de poesias que ganhei, era o Audácia, a dedicatória datava de 1992, quando eu tinha apenas sete anos e havia saído recentemente da alfabetização.
Vovô João havia me dado uma cópia do livro do seu irmão Augusto, que para mim sempre foi o tio Gusto, que nunca conheci pessoalmente, só por fotografias, verso e prosa. Daí, provavelmente, surgiu o meu gosto pela poesia, vendo aqueles versos despretensiosos, diretos, repletos de sentimentos pueris e cheios de humor.
Obviamente, tenho uma relação mais que consanguínea com o poeta, o que me faz altamente suspeito para falar dele. Mesmo sabendo que tudo o que escreva aqui vocês poderão julgar como uma tentativa de que eu apenas queira buscar uma forma luzir meus “antepassados poetas”, tal qual faziam os candidatos a bispos medievais que inventavam parentescos com santos, ou criavam milagres dizendo que tinham sido feitos por seus antepassados para que se tornassem mais dignos do cargo eclesiástico, decidi publicar esse textinho.
Deixando de lado quaisquer que sejam minhas intenções com essa publicação, peço que observem sua poesia e, se possível, comentem.
O que me parece interessante é: como alguém tão bem criticado, elogiado, lido e "bem relacionado" em sua época entrou num total ostracismo, de forma que pouquíssimos conhecem sua literatura?
É uma pergunta que ainda não tenho resposta. Não sei se terei. Talvez seja o mais normal. Mesmo assim, é uma pena.
Sem querer prolongar mais esse meu texto, pois sei que poucos terão paciência de chegar até o fim dele, deixo vocês (os mais corajosos e pacientes) com os versos do poeta Guerra de Holanda.

Algumas poesias de Audácia

VÍCIOS

Há os que bebem; há os que fumam;
Há os que fazem coisas bem piores...
Eu faço poemas!

ROMANTISMO

Depois que te abandonei, Moêma,
senti o desejo iscariote de ser Judas
para morrer enforcado
nas tranças de teus cabelos!...

MUNDO

O homem triste entrou no Casino,
pediu champanhe
e bebeu,
bebeu...

Dançou com sete mulheres
que estavam lá, para alegra-lo.

Depois do vigésimo terceiro “fox”,
sentou-se à mesa,
bateu palmas, chamando o garçom:
“– Garçom, traga-me a Felicidade!”

O rapaz sorriu:
“– Aqui não há felicidade!”


A poesia que dá nome ao livro O Rosto.

O Rosto

O rosto de Zulmira é mais bonito
Do que uma Missa Pontifical
Com incenso, turíbulos e mitras
E as outras pompas do ritual

O rosto de Zulmira é mais bonito
Muito mais bonito que o mar
Com uma jangada branca, toda branca,
De velas, pandas, a navegar

O rosto de Zulmira é mais bonito
Do que o filho primogênito
O que veio primeiro, na dor primeira,
A beleza maior, mais verdadeira

O rosto de Zulmira é tão bonito
Que eu esqueço que sou homem
E fico a olhá-lo de olhos quedos
Como criança que se admira
Vendo uma vitrina de brinquedos

O rosto de Zulmira é tão bonito
Como nenhum outro rosto de mulher
É alegria sensual que se deseja!
É a paisagem humana que se quer!

O rosto de Zulmira é tão bonito
Que o resto de seu corpo sente inveja!

                                     Guerra de Holanda


(em consonância com a Periferia do Mundo)


4 comentários:

  1. Puta que pariu! Que poeta cachorro da mulesta de bom!Como é que agente faz para ler mais poemas dele Lucas, agora q tu começou vai ter que dá um geito! Digitalize o livro desse homem e compartilhe com os poetas marcianos da terra =]

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  2. Compartilharei!
    Tenho todos os três livros e ainda alguma coisa inédita dele. Não empresto pq é tudo filho único de mãe solteira. Mas pretendo postar mais poemas dele e, em um futuro muito próximo, digitalizar Audácia e também O Rosto para disponibilizarmos aqui e no Castanha Mecânica.

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  3. Que poemas lindos Lucas *o*
    E nem se preocupe, o bom mesmo é conhecer coisas novas... E textos escritos com tanto sentimento e empolgação sempre despertam interesse :D
    Já estou na fila para ler esses e-books.
    Parabéns pela postagem!

    :*

    P.S:Daniel, controle-se! ;)

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  4. confesso que espero que esse futuro seja próximo mesmo hehehehee

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