Viajantes Interplanetários

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

É NODA! — #01

QUALQUER PESSOA
“Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta”
(Maurício Pacheco)

É completamente irreal (mas não impossível) para mim que alguém que nunca tenha dado uma única pincelada na vida resolva fazer uma exposição do seu não-trabalho e que ainda haja um curador disposto a ceder um espaço ao mais novo artista plástico da vez. Fazendo uma transposição dessa situação para a música, seria o mesmo que uma banda onde nenhum “músico” nunca sequer tenha tocado um único instrumento seja contratada por uma grande gravadora. E na poesia, será que a transposição é tão irreal e longínqua assim?
Arte menor por natureza, a poesia tem disso: a possibilidade de qualquer pessoa expressar o que sente (ou não) através de versos (ou não). Tudo bem, tranquilo, concordo. Qualquer pessoa tem plena capacidade de se aventurar na poesia, até mesmo sem precisar saber ler ou escrever, que dirá saber de formas, fôrmas, métricas ou rimas.
Tem muita gente, todavia, achando que o pós-modernismo escancarou as portas do fazer poesia e agora quem quiser pode entrar. E que todo mundo pode oswaldear como bem entender. Mas muitos se esquecem de que quem abriu essa porta foram os próprios poetas.
E nunca é demais lembrar que o poeta não é qualquer pessoa. Insatisfeito, dissonante e perdedor, o poeta foge à regra. Porque quem não se incomoda e vence em tudo na vida, da poesia só quer, no máximo e na melhor das hipóteses, se dedicar à leitura.
O abismo que separa o poeta a qualquer pessoa é o mesmo abismo que separa a poesia de ambos. Portanto, aceito o pressuposto que qualquer um pode escrever poesia, mas por corporativismo e defesa da classe, fico com a poesia escrita por poetas.
Assim como também prefiro ler críticas, resenhas e considerações literárias daqueles que realmente se dedicam ao assunto. Cabe-me como autodefesa afirmar que a impressão de um mero caju, quando muito, não passa de uma simples noda.

__________
Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
    

21 comentários:

  1. Fred,
    Concordo contigo e sobre o tema já escrevi em entrevista neste mesmo blogue:
    "Sei que não sou poeta e nem tenho pretensão de sê-lo, contudo, minha fascinação é pelas palavras, estas me seduzem e gosto de explorar suas potencialidades, daí os haicais serem uma decorrência normal dessa minha paixão. Peço desculpas aos haicaistas deste país por estar brincando na área deles".
    Assim, espero que você me isente de tuas alfinetadas, mesmo porque você é um grande poeta e pode ser altruísta se o quiser. Abraços, JAIR.
    .

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    1. Jair, camarada, na mesma entrevista até comentei sobre o conceito de beletrista que você mencionou. E pra mim, quem se sente fascinado e seduzido por palavras ao ponto de explorar suas potencialidades é um poeta. Afinal, com tanta coisa boa no mundo, se encantar com palavras é coisa de quem tem um parafuso a menos (entenda no bom sentido, pois assim me considero também). A autolegitimação como é sempre uma estrada longa e instável. Há alguns dias postei no Cronisias um discurso de Wislawa Szymborska sobre o poeta e mundo, se não conferiu, vale muito a pena ler: http://cronisias.blogspot.com/2012/02/o-poeta-e-o-mundo.html

      Abraços, POETA Jair!

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  2. Fred, parabéns pelo post e pela polêmica que certamente vai gerar nas terras marcianas. Concordo que a opinião ou o escrito de alguém especializado, que se dedica em aperfeiçoar-se e estuda a respeito do assunto que se propõe a falar/escrever é bem mais válida, pois está muito bem embasada. Mas como definir pessoa e poeta e como esta pessoa será poeta se não der uma primeiro passo, um rascunho daquilo que futuramente possa ser considerada poesia ou coisa minimamente poética? Só faço uma defesa daqueles que estão começando e que não se acomodam como eternos iniciantes, claro.
    Se fiz uma interpretação equivocada do seu texto me diga, hein? Mesmo assim, minhas congratulações!
    Um grande abraço!

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    1. Manuel Bandeira diz que nenhum poema escrito antes dos 22 anos de idade, exceto em casos excepcionais, devem assim ser considerados; não passam de rascunhos. Não acredito que poesia venha do berço, é uma conquista paulatina. Leminski tem uma teoria de poesia etária interessante: http://www.youtube.com/watch?v=rFQxOlpLNMQ&feature=related

      Considerando que a profissão dificilmente é remunerada, entendo perfeitamente que é difícil alguém bater no peito e se dizer poeta. A questão principal, porém, não é quem não se diz poeta, é quem acha que é sem dedicação à escrita, à leitura ou ao mais importante: à sensibilidade.

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  3. Cajuíno amigo!

    Escrever poesia de, pelo menos, teor mediano,exije o mínimo de leitura e estudo dos significados de palavras que venham a se costurar nos temas requeridos.

    Acho graça de quem critica quem escreve um soneto, afirmando que deve existir liberdade nos versos. Pelos céus, esse preconceito inverso não tem fundamento.

    Não digo que devamos ser ultramente entendidos, mestrados e doutorados em literatura. Contudo devemos ser nos colocar em nosso devido lugar. Toco violão desde os meus 15 anos. Talvez eu seja músico, nas daí a dizer que sou um Rafael Rabello...Sou matemático há mais de dez anos e estudo sempre, mas daí a dizer que consigo ser John Nash...

    Devemos trilhar o caminho do meio!

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    1. Esse é o ponto Cristiano. Conheço gente que diz que escreve, mas não tem sequer a humildade de utilizar um dicionário sequer. E concordo com a inversão da crítica pelas liberdades formais. Vejo gente se queixar da métrica mesmo sem nunca estar aprisionado a ela. E como diria o Alberto da Cunha Melo: tem muito verso livre que deveria estar preso. Mas isso é material para outra noda de caju... Como você mesmo disse, não precisamos ser especialistas, assim como o Wesley apontou não permanecer no eterno amadorismo. É necessário uma humildade na medida certa, apenas.

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    2. Fred caju, você, quiçá, seja um "maluco Beleza".
      E eu, quiçá, um maluco total...
      Eu fiz um paralelo equivocado entre o teu texto e outros fatores que delineavam o meu estado de espírito... também supus como sendo uma extensão da entrevista do Jair. Não vendo motivo pra tais observações me senti na emoção de fazer tais considerações.
      Mas, "o trem passou, o barco vai..."
      E vamos pra outra: movimento primeiro mandamento.
      Abraço tricolor! (e vamos com tudo pra cima do Boca Jr.!)

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    3. Júllio, tranquilo. Outra característica minha que quem conhece é mais quem tem convívio pessoal é a minha demora na produção dos meus poemas, que se estende ao meus textos também. Desde o início de fevereiro que venho escrevendo essas linhas para o post número 1 da coluna. Até tinha comentado na quinta-feira com o Lucas que estava pronto, a entrevista do Jair que saiu no domingo, portanto nada influenciou.

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  4. muitos dos que aqui adentram,nesse democrático espaço, ficaram com a pulguinha atrás da orelha.Pois agora... O texto tem muito sentido e não é difícil de concordar, desde que não tenha "indiretas nada objetivas"... Espero que não seja nem uma crítica "velada" para algum dos colaboradores dessa blogosfera; sim colaboradores, de certa forma; cada um com a sua livre e respeitável manifestação.
    Temos que ter muito cuidado, a nossa língua tem algumas imperfeições, sobretudo nos sinônimos, visto que não existe sinônimos perfeitos. (às vezes, alguns mal entendidos, é questão de semântica; polissemias ou bobeiras...)

    Abraços! (saudações tricolor!)

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    1. Júllio, não se trata de nenhuma indireta, mas o que eu penso diretamente. Os colaboradores do blog que conheço pessoalmente sabem que faço minhas críticas abertamente e não me utilizo de recursos retóricos que disfarcem ou suavizem minhas opiniões. Como sentenciei no anúncio da coluna (http://poetasdemarte.blogspot.com/2012/02/em-breve.html) esse será um espaço que utilizarei para escrever sobre o que ameaça a minha paz de espírito enquanto poeta. Ou seja, geralmente usarei um tom de crítica mesmo. Afinal, você há de concordar comigo que na "blogosfera" a maioria dos comentários aparecem com tanto carinho que beira a bajulação, e quando aparecem em forma de crítica, infelizmente não se usam desse espaço democrático e preferem criticar em anônimo.

      Abraços de um também tricolor, mas de Pernambuco!

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    2. Prezado amigo tricolor,

      creio que tenha se equivocado quanto ao meu comentário acima. Ele na realidade é fruto do que vejo nos rodeando na net. Não sou de indiretas. Nunca fui. Se tivesse que expressar minha opinião sobre algo que me incomoda eu o faria de maneira bem aberta. Se por acaso não me agrada alguma postagem, e acredite eu leio muitas, eu simplesmente me abstenho do comentário.

      Sei, tenho plena certeza que nunca alcançarei o patamar de ícones tais como Ferreira Gullar, Affonso Romano Santana, Drumond e outros. Nem mesmo próximo de poetas menos evidentes como Sérgio Fonseca e Carlito Azevedo,por isso mesmo é que acho, assim como o Caju parece também achar, que estamos num caminho menos tortuoso.

      A questão explicitada é o bom senso. Ter mente aberta, porém nunca se esquecendo de onde viemos e o que somos.

      Outrossim, deixo claro que minha opinião não tem o intuito de ferir o ego de ninguém.

      Uma canção de Milton tem um verso que diz: Certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim que perguntar, parece, como não fui eu que fiz.
      Sem querer demonstrar minha inveja boa, tenho o mesmo sentimento pela nova coluna cajuína.

      Sigamos!

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    3. Caríssimo Cristiano,
      tudo tranquilo, eu não me equivoquei em nenhum momento com o seu comentário. Aliás, tenho certa sintonia e comungo com as suas grandes tiradas literárias; tanto que estou sempre conferindo com prazer os seus devidos textos.
      Falou, brother!?
      Um forte abraço

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  5. Gosto desse boxe literário que vem em formas de socos-opniões, isso aqui é o que eu chamo de discutir arte e não o que fazem os críticos que em sua grande maioria jamais escreveram ou fizeram alguma arte comedo de colocar suas cabeças nas forcas que dominamos. Evoé Caju e sua noda!

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    1. Como aqui é um espaço de debate, acho que o trabalho dos críticos é tão arte quanto a poesia. Comigo começou assim: leitura de poesia, leitura de crítica, depois, muito depois, escrita. Portanto pra minha formação foi muito importante. E acho que ele põe mais a cara que a gente, que fala em pseudônimos, em enigmas e versos que se aproveitam da necessidade de síntese para omitir o conveniente. Evoé, maluco!

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  6. Caju,

    Concordo com vc, isso não é novidade. Já tomamos muita cerveja em prol desta discussão. Concordo que há muita mediocridade e muita gente que não lê nada além do orkut e do faceook e que quer tirar onda de poeta... (Acho que estou sendo um pouco maldoso em não incluir Augusto Cury e Paulo Coelho nas influências de algumas delas...)
    Vi uma entrevista do Chacal esta semana que me chamou atenção, ele dizia que para ser poeta tem que ter essa tal doença da Palavra... E só quem é doente de verdade é que sabe o quanto a palavra sabe doer, tirar o sono e impedir que sua vida ande normalmente.
    Sei que a doença pode variar os sintomas de pessoa para pessoa, mas lembro-me também que os dependentes químicos também são considerados pela OMS como enfermos... bem... acho que o caso mais específico de se fazer uma alusão ao poeta infectado é que ele é como o do usário de crack. Não dá para se contentar com uma pedrinha só, tão pouco com uma palavrinha qualquer... Na realidade, o vício te faz buscar onde você possa encontrar mais e mais palavras. No meu caso muito mais as dos outros, já que as minhas não me bastam.
    Não tenho medo de dizer-me doente, infectado, contaminado, poeta. Dizer se sou bom ou mal, já não é trabalho meu e pouco me importa, o importante é que minha cara está aqui e pode ser batida, ou melhor, deve. Quem sabe um tapa desses não me acorde e me traga a cura dessa merda?!

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    1. os caras só tão botando furando nessa postagem hahhah

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    2. Caju vc andou por aí com Célio kkkkkkkkkkkkkk

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    3. No dia que você tiver alta, sua poesia ficará em baixa! Mantenha-se enfermo, louco,insano e incansável atrás das palavras. Essa é a sua natureza!

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    4. Como você mesmo disse, Lucas: "já tomamos muita cerveja em prol desta discussão". Não vou nem reproduzir as minhas concordâncias com o seu comentário. E gostei dele, inclusive.

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  7. Palavras para refletir. Incomodaram-me realmente. Pois escrevo, e senti-me encolhida... Gostaria muito de seu olhar crítico, poeta, sobre minhas palavras aí, pela blogosfera.

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    1. Não sou crítico literário, Ana. Mas já a acompanho há algum tempo. Abraços.

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