Viajantes Interplanetários

E-MARTE: Cadastre-se para receber nossas novidades em primeira mão!

sábado, 19 de maio de 2012

Haicais de Além-mar (Segunta parte)



No domingo,dia seis de maio desse mesmo mês, postei aqui no Haicais de Domingo a primeira parte da entrevista com David Rodrigues, poeta e escritor português. Hoje, o haicadista de mais de dez anos atuação, nos apresenta segunda parte de nosso bate-papo intercaldo pelos haikais elaborados no workshops regulares que faz em escolas do ensino fundamental para falar do haiku e incentivar crianças elaborarem seus primeiros poemetos.
vagueio pela praia–
as ondas perdem e ganham
reflexos de Sol.

(David Rodrigues)



De frente para o mar
David Rodrigues (org.)

Dez poetas portugueses reunidos em homenagem aos 150 anos do Tratado de Amizade Portugal-Japão.

Haicais de Domingo:O que o inspira na construção de sua poesia que , ao meu ver, se mostra tranquila e transmite uma paz evidente?

Primavera –
Na sombra
A relva está mais fria.
(Leonor, 6 anos)
David Rodrigues: A Paz não é algo que eu tenho: é algo que eu procuro. Tenho uma vida profissional muito intensa e uma gama de interesses muito diversificada: sou pianista de Jazz e para além disso cultivo a minha insaciável curiosidade sobre vinhos, viagens, etc. Aproximei-me do haiku pela sua matriz mais tradicional: a contemplação e o respeito pela Natureza. E aí encontro um infindável manancial de inspiração. Acho que a natureza com a sua morte, a sua renovação, a sua diversidade e a sua beleza é inesgotável. No entanto gosto também de escrever sem esta ligação tão umbilical à Natureza.
“Respirar: 101 haiku” (Corposeditora,2008) com prefácio de Paulo Franchetti.

Confesso que acho que o haiku tradicional, com “kigo” e com as estritas regras com que foi criado me parece ter sobrevivência difícil depois de tantos e tão bons clássicos o terem escrito e quando é transposto para épocas e lugares tão diferentes dos da sua origem. Gosto assim de escrever um haiku que alguns observadores chamam de “haiku contemporâneo” e cujos autores se reúnem numa grande organização sediada no Japão e chamada “World Haiku Association”.

Neste galho
Estão todas as cores
Do arco-iris.
(Sara, 6 anos)

A minha ideia de haiku não tento que ele seja uma ilha de paz – claro que também pode ser mas não exclusivamente – é mais que ele seja um olhar limpo, simples mas narrativo sobre o mundo. Explico melhor o que quero dizer com “narrativo”. De todos os infinitos estímulos que a realidade nos proporciona, nós selecionamos alguns e damos-lhes sentido, coerência, ordem e relação. Narrar é, na minha perspetiva selecionar um grão de realidade que, por nos ter (en)cantado, nos convida a contemplá-lo e a descrevê-lo como se fosse uma história nossa, isto é narrá-lo.
Àrvore oca –
Passagem secreta
Para o outro lado.
(Marilde, 5 anos)
Haicais de Domingo:Você, numa postagem de dezembro do ano passado, cita um interesse razoável na obra de Manoel de Barros. Quais autores brasileiros fazem parte de sua leitura eventual?

David Rodrigues: A língua portuguesa tem extraordinários artistas. A maioria deles está no Brasil e é inevitável que alguém que ame a literatura – portuguesa e universal - conheça o que se escreve no Brasil. Nomear é sempre redutor mas deixava-lhe cinco nomes: Clarisse, Carlos, Jorge, Manoel e Nelida. E junto cinco nomes de Portugal para lhes fazerem companhia: Sophya, António, Gonçalo, Virgílio e Fernando.

Recreio-
A árvore
Carregada de amigos.
(Rodrigo, 5 anos)
Mostrando que os haicais são mais do somente meras dezessete sílabas, é com muito orgulho que finalizamos a conversa que certamente há de continuar num futuro bem próximo. Visto que se há haicais de boa qualidade com toda certeza estarão escrtos, em algum momento, aqui, nessa coluna dominical com todo prazer.
Agradeço gentilmente a David.

Muita paz!
Cristiano Marcell é professor nas horas vagas e escreve regularmante
nos blogs Esquife de memórias e Haicai e não Machuca

22 comentários:

  1. Muito boa a entrevista. Essa divulgação (quase informal) é importante para quem se dedica aos haiku/senryu, por desvendar sutilmente o espírito haijin contemporâneo.

    Considero o David, com toda a sua discrição, um poeta maduro, mas sem nunca perder o viço. Ou seja, escreve o que gosto de ler.

    Obrigado, Poetas de Marte!

    ResponderExcluir
  2. Ótima entrevista. Muito legais esses haikus das crianças. Como poeta, há de se aprender muito com a visão de quem está vendo o mundo e as palavras como um choque inicial.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Certamente! O poema pelo ponto de vista de uma criança é fascinante!

      Excluir
  3. A primeira parte da entrevista, de cara, já veio legitimar, pra nós que não conhecíamos, a grande personalidade poética que é David Rodrigues. Essa segunda parte veio a complementar as suas facetas e nos mostrar a beleza dos pequeninos aprendizes de poeta.
    Muito legal!
    Valeu Cristiano! (Parabéns a "Sociedade dos Poetas de Marte"!)

    ResponderExcluir
  4. Boa tarde ao entrevistador e ao entrevistado,

    Excelentes perguntas, e não menos inteligentes, bem pensadas e bem estruturadas respostas.
    Se vê que o escritor conhece o mundo. Procura a paz e iso é muito importante.
    Adorei os haicais postados e feitos por meninos e meninas de tenra idade e que mal começaram, ainda, a escrever.

    Feliz seamana.
    Abraço Português, para ambos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Abraços tropicais, cara amiga da mãe-pátria!

      Excluir
    2. Obrigado Luz. Luz de Portugal vibrante do reflexo da água.

      Excluir
  5. era, há já algum tempo, muito aguardada esta segunda parte, ou não tivéssemos sorvido de um só trago toda a primeira. sublinho, aqui, as referências de leitura/influências na escrita do entrevistado, tanto lusas quanto brasileiras - revejo-me em absoluto nos nomes.

    um abraço a ambos!

    ResponderExcluir
  6. OI CRISTIANO!
    LENDO A 2° PARTE DA ENTREVISTA COM O DAVID E OS HAICAIS DOS PEQUENINOS, POSSO DIZER QUE PELA SABEDORIA DE ESCRITOR DO MESMO, DÁ ESTA OPORTUNIDADE A TODOS NÓS DE VERMOS A FORMA POÉTICA JÁ LATENTE NESTES PEQUENOS CORAÇÕES.
    ABRÇS

    zilanicelia.blogspot.com.br/
    Click AQUI

    ResponderExcluir
  7. Cristiano um momento único estar na leitura desta preciosa entrevista, conhecendo melhor o mundo do Haiku e aprofundando o meu sentir poético nas asas destes versos milenares.
    Conhecer o grande escritor haicaitista David Rodrigues é como ter uma aula de aprimoramento neste universo intenso e conciso.
    Congratulações pela brilhante entrevista e entrevistado.
    um beijo de violetas e meu carinho

    ResponderExcluir
  8. Olá, amigo Cristiano!
    Obrigado por me avisar!
    Além de ter múltiplos talentos,David Rodrigues bebeu de belas fontes tanto brasileira quanto lusitana e universal.
    É-nos muito profícuo ler publicação sobre o trabalho de alguém com a gama de conhecimento tão grande assim.
    Sua iniciativa é magnífica!

    Parabéns a ambos!

    Abraços!

    Abraços!

    ResponderExcluir
  9. Caro Cristiano
    Mais uma vez te aplaudo pela sua brilhante postagem. Me fez conhecer mais de David Rodrigues. "A sua idéia de haikai não exclusivamente de paz, mas um olhar limpo na perspectiva de selecionar um grão de realidade que por nos ter encantado nos convida a descrevê-lo"

    Sua entrevista me instigou a ir até "Haiku Portugal" e encantar-me com a viagem. Eu como aprendiz me vi nos seus workshops caminhando e aprendendo com as crianças

    " Arvore avó
    a seiva de sangue negro
    renasce em mim"
    De Olá Instituto de Odivelas

    Quem não se sente em casa e grato por embarcar nesta Pátria mãe que acolhe a todos, negros, brancos e amarelos?

    "Duas árvores unidas:
    Vidas partilhadas
    em tudo"
    E David é assim influenciado em ambos os lados desta ponte, unindo dois países irmãos

    Me identifiquei neste haikai: Uma apreensão mística no decolar do avião.
    "Do alto da noite
    linhas brancas e vermelhas
    e o céu no chão"

    Riqueza do poema em "Sete anos de Jacob" entre muitos que li.

    E de Bashô
    "Furu ike ya
    Kawazu tobi komu
    mizu no otô"

    E a quintessência do requinte em:

    "Ah...a pétala de rosa!
    Quase parece
    ao do malmequer"

    Enfim, vou parar por aqui. Foi apenas uma empolgação de muito que gostarei de ler do seu convidado especial, e agradecer ao não menos especial anfitrião.
    Parabéns aos dois.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Elisa: Caminhar perto da arte é uma procura da transcendência. Só procura... que às vezes é plenitude.
      Obrigado!

      David

      Excluir
    2. Bom que tenha gostado, minha cara! Muita paz!

      Excluir
  10. Cristiano:

    Muito obrigado pelo seu trabalho na recolha e ilustração deste texto. Como tudo o que tem qualidade nota-se aqui paciência, compromisso e missão. Quando li o seu texto surpreendi-me com o quanto conseguiu dizer e fiquei a pensar quanto ficou por dizer. Felizmente que o tempo continua a rolar e nos poderemos voltar a encontrar na próxima rotação.
    Receba um abraço amigo e de mnuita consideração do

    David Rodrigues

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito estimado David, bom dia!

      Obrigado e me perdoe algo que tenha deixado a desejar em nossa conversa!

      Sigamos em frente!

      Excluir