Viajantes Interplanetários

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sábado, 7 de julho de 2012

Hoje & Sempre #MilkShake Literário


POBRÁS
(Poesia Brasileira, Pobreza Brasileira)
orgulhosamente apresenta
um produto
que vai pro lixo:
os poetas

Nicolas Behr


Aloha! :D
Faz algum tempo que o MilkShake saiu do cardápio aos sábados... mas um bom filho sempre a casa torna, então vamos degustar! E como entrada, nada como recorrer a um bom e velho prato típico da casa: A Poesia Marginal.
Li recentemente 26 Poetas Hoje, antologia organizada por Heloisa Buarque de Holanda. Foram escolhidos poemas de 26 poetas marginais onde o hoje é datado em 1976. Alguns poetas já tiveram presença carimbada aqui em nossa terra marciana, como Chacal e Torquato Neto. Outros foram pura novidade para mim e foi um prazer imenso descobrir estes poetas e seus poemas “subversivos”.


E em puro clima de ousadia, afirmo que Heloisa foi mais além do que publicar o que as grandes editoras e os críticos estavam a rejeitar. Embora os poetas não estivessem enormemente preocupados com o nariz arrebitado das editoras, desde que entre o público houvesse boa aceitação. Então o que se via eram poemas mimeografados e distribuídos em forma de livretos, gratuitamente.
O livro fez história justamente por ir contra o sistema vigente (pleno período de ditadura militar, AI5) e divulgar os poemas que inspiravam rebelião e inconformismo. De acordo com Calegari, os poetas marginais procuraram se afastar dos consagrados textos poéticos e
procuravam falar da vida imediata, numa linguagem informal, em que o humor e a gíria encontravam espaço. Discorriam sobre amor, sexo, drogas, política, vida familiar. Suas fontes eram as mais variadas: do modernismo à vanguarda concretista, passando pela tropicália. (2010, p.3).

Heloisa cercada por esses poetas tinha munição de sobra para organizar esta antologia e foi o que fez, com a ajuda de Cacaso e Chico Alvim. Separei alguns poemas que gostei para postar aqui, escolhi os menores por causa do espaço. Confiram:


AQUELA TARDE
Disseram-me que ele morrera na véspera.
Fora preso, torturado. Morreu no Hospital do Exército.
O enterro seria naquela tarde.
(Um padre escolheu um lugar de tribuno.
Parecia que ia falar. Não falou.
A mãe e a irmã choravam.)
Francisco Alvim
SHEN HSIU
Havia um monje
Que lustrava a careca
Para que sua cabeça
Fosse como se um espelho:
Refletisse tudo
E não guardasse nada.
Carlos Saldanha

A VERDADEIRA VERSÃO
O medo maior que tenho é de faltar
minha imagem
em teus projetos futuros.
Por isso só te conjugo no pretérito passado.
Antonio Carlos de Brito

Cansados da longa e absurda história
Resolvemos num ímpeto despedirmo-nos
/Calma coração
A poesia reclama paciência/ 
João Carlos Pádua

MEU AMOR DE SOSLAIO
Faz tanto calor no Rio de janeiro
que é bom sentir essa neve
partir de seu olhar 
Luiz Olavo Fontes

&
O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.
Eudoro Augusto

Quem diante do amor
ousa falar do Inferno?

Quem diante do Inferno
ousa falar do Amor?

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama de Baudelaire
Isabel Câmara

uma
palavra
escrita é uma
palavra não dita é uma
palavra maldita é uma palavra
gravada como gravata que é uma palavra
gaiata como goiaba que é uma palavra gostosa
Chacal

nunca viajei de avião
mas muitas vezes estive no ar
um desinteresse marcante
uma marcação latente
uma dor de dente
uma paixão fulminante
Charles






Tenho certeza que alguns desses poetas foram/são inspiração para muitos ainda hoje. Por isso mesmo o título nunca deixará de ser atual.
E Em tempos de Castanha Mecânica, Heloisa disponibilizou em seu site a Antologia! Divirtam-se aqui.

Mahalo:*
@Lycintra


CALEGARI, Lizandro Carlos. Notas sobre a poesia marginal brasileira. Revista Litteris, Rio de Janeiro, n.4, mar. 2010. Disponível em:  <http://revistaliter.dominiotemporario.com/doc/notassobreapoesia.pdf> Acesso em: 5 jul. 2012.

Imagem: Site - Heloisa Buarque Holanda -

12 comentários:

  1. Bela postagem, prezada Ly!

    Olha aí, Sr.fred Caju! O poeta Chacal que você tanto curte!

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    Respostas
    1. O batalhão inteiro eu gosto. É muito estranho ver o nome verdadeiro do Cacaso em um poema...

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    2. Obrigada Cristiano :D
      Grande Abraço!

      P.S: Eu coloquei o nome completo, porque é assim que ele assina na coletânea.

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  2. Mandou bem demais, Ialy. E a referência ao Castanha Mecânica muito me honrou.

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    Respostas
    1. Valeu Caju *-*
      O prazer é meu, sempre.
      Sucesso com o projeto!

      :*

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  3. Esse poema do Chacal me lembra um canção de Caetano

    Uma talvez Júlia
    Uma talvez Júlia não
    Uma talvez Júlia não tem
    Uma talvez Júlia não tem nada
    Uma talvez Júlia não tem nada a ver
    Uma talvez Júlia não tem nada a ver com
    Uma talvez Júlia não tem nada a ver com isso

    Uma Jú________lia

    Um quiçá Moreno
    Um quiçá Moreno nem
    Um quiçá Moreno nem vai
    Um quiçá Moreno nem vai querer
    Um quiçá Moreno nem vai querer saber
    Um quiçá Moreno nem vai querer saber qual era
    Um Moreno

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  4. Ialy!

    Adorei o post.
    Posso não ter nenhum graande conhecimento em poesia, mas o que mais gosto na poesia marginal são exatamente o humor e a linguagem mais informal.
    Os poemas que você escolheu já me deixaram com vontede de ler os outros, vou correndo baixar o livro. Mais um pra minha interminável lista de leituras. hehehe

    Ah! E vê se volta a postar mais vezes por aqui, eu já estava achando que você tinha abandonado sua coluna no Poetas de Marte.

    ^_^

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    Respostas
    1. Anaaa :D
      Que bom ver você por aqui também!
      Fico feliz que tenha gostado. Eu também não sou Expert no assunto, deixo isso para os caros poetas marginais que habitam nosso planeta vermelho... Mas sou curiosa :) Acho que isso já basta para dar meu pitaco no MilkShake.

      Nossa interminável lista SEMPRE, kkkkkkkkk!
      Você não vai se arrepender. É uma leitura muito gostosa e reflexiva.

      Abandonar o Milk? Jamais!
      Pode deixar, anotei o recado.

      Obrigada por ter vindo, beijocas.

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  5. Voltou atirando a genial poesia marginal =]
    gotei mais de:

    SHEN HSIU
    Havia um monje
    Que lustrava a careca
    Para que sua cabeça
    Fosse como se um espelho:
    Refletisse tudo
    E não guardasse nada.
    Carlos Saldanha

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  6. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Achei que não tinha um melhor jeito de retornar Dan. Eu te disse que esse dia chegaria não foi?

    Ahhh, eu gostei de tantos, tantos *-*
    Abri um arquivo no word e saí colocando os preferidos lá. Pena que não dá pra colar aqui, hahaha.
    Mas o link tá aí! Leiam e me contem os seus preferidos.

    :*

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