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sábado, 20 de outubro de 2012

MEXENDO NA SUA RADIOLA

THE MOON 1111


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A forma como Otto põe para dialogar suas referências desafia raciocínios mais cartesianos. Afinal, em sua cabeça, é muito natural que o romantismo de Odair José e o de François Truffaut sejam compatíveis. Ou que a África brote entre Recife e Olinda. Ou que o Pink Floyd venha das mãos de Lincoln Olivetti. Foi tendo ideias como essas em mente que ele arquitetou o CD The moon 1111 (Deck, com patrocínio do programa Natura Musical), que lança nesta sexta-feira, às 23h, no Circo Voador.

Seu pensamento solto, que resulta, rotineira e estranhamente, em álbuns conceitualmente bem amarrados, pode ser percebido na origem de The moon 1111. Há cerca de um ano, mais exatamente, em 11/11/2011, Otto lançou na internet um teaser registrando o processo de gravação do disco que agora ele apresenta. O número cabalístico relacionado ao álbum (no título, na data do teaser e da chegada do CD às lojas, no próximo 11/11) veio para o artista quase como uma obsessão.

"Houve uma época em que eu via 1111 em tudo. Diminuí isso, mas consigo ainda converter qualquer número em 1111, com uma operações matemáticas. Quando tem 8, é mais difícil fazer isso", explica Otto. "Em Fahrenheit 451, de Truffaut, há uma cena em que os livros estão numa fogueira, e um dos livros era The moon 777, algo assim. Juntei as coisas: Truffaut, o 1111, uma ideia de portais da percepção que queria tratar nesse disco, e saiu o título."

Truffaut era um referência central para o que Otto chama de “romantismo contemporâneo”, um romantismo possível hoje, que o artista se propõe a defender em sua obra: "O romantismo hoje está muito difícil, a ideia do amor romântico num tempo em que todo mundo está próximo pelas redes sociais, você sabe que tem uma namorada e que tem dez cutucando. É um mundo em que não faz mais sentido essa história de meu amorzinho que acabou, as cantoras que choram pelo amor perdido. Levanta e vai trabalhar! Truffaut é um cara que trata bem dessas questões. Em O homem que amava as mulheres, todas as mulheres são independentes. E Odair José de A noite mais linda do mundo toca em Truffaut nesse sentido. Meu romantismo é esse, você tem que contar com as cutucadas (risos). Quando falo de moon 1111 como um portal, a internet é isso. Em HDeus falo da maçã de Eva e da maçã da Apple. Essa história de Adão e Eva acabou, a nova religião é a internet."

A foto em frente a Awilda (escultura do espanhol l Jaume Plensa em homenagem a Iemanjá, localizada na Praia de Botafogo), uma grande cabeça que, nota Otto, remete a uma lua, sintetiza várias das ideias fragmentadas, às vezes contraditórias, que convergem em The moon 1111. O conceito místico- futurista, a religião afro-brasileira. Nos batuques e na temática, aliás, o candomblé é presença constante em seus álbuns. Agora, ele aparece em faixas como Exu parade — entrelaçado ao sexo, outro tema caro a Otto, como mostram canções como a nova DP, gíria para Dupla penetração.


O candomblé é uma das maneiras de Otto se ligar à África, presente na base sonora do disco (na definição do cantor, Fela Kuti e Pink Floyd são os pilares centrais). Mas o curioso é que ele foi buscar Fela Kuti e a África em Peixinhos, comunidade pobre entre Recife e Olinda, local onde conheceu Chico Science e onde começou a tocar com a Nação Zumbi. "A África que conheci é essa. Qualquer favela carrega a África. E eu sou aceito ali. Sou do interior de Pernambuco. Joguei bola, toquei pandeiro, só eu e meu irmão éramos branquinhos, o resto era de moreno para negro."

A ideia de gravar em Peixinhos (Otto nunca havia gravado nada no Recife) veio de Pupillo, produtor do disco e baterista do CD. A banda tem em seu núcleo ainda Kassin, Fernando Catatau e Lincoln Olivetti (os três são os maiores responsáveis pelo lado Pink Floyd do disco, segundo Otto), todos músicos e produtores.

"Mas Lincoln é o pai deles todos", brinca Otto, referindo-se ao lendário produtor que trabalhou com quase toda a música brasileira, sobretudo nos anos 1980. "Em Dia claro, quando ele toca teclado, não resisti, como Tim Maia não resistiu, e improvisei uma declamação."

Nos shows, ele mostrará músicas do novo disco, de seus outros três CDs e algumas canções alheias de que gosta.
"Aprendi a cantar Drão e tô adorando. Devo fazer à capela."



Fonte: Diário de Pernambuco: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/10/19/internas_viver,403193/novo-disco-de-otto-tem-espirito-de-celebracao.shtml

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