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quarta-feira, 6 de março de 2013

Eucanaã Ferraz: ‘A poesia está fora do circuito das mercadorias’


Entrevista para o Blog Máquina de Escrever - Globo.com

Por Luciano Trigo.

Entrevistado - Eucanaã Ferraz



- Comemoramos esta semana os 110 anos de Drummond. Por que os poetas, hoje, não tem o mesmo impacto e a mesma inserção social que tiveram Drummond, João Cabral, Manuel Bandeira etc? O espaço da poesia no mundo diminuiu? A poesia perdeu relevância social?  

EUCANAÃ: Não discordo de sua avaliação. Mas é preciso somar a ela o fato de que o teatro, a música, a arquitetura, o cinema e as artes plásticas também perderam relevância social. A diferença é que, em outras áreas, mesmo na literatura, com a prosa de ficção, assistimos volta e meia a excepcionalidades impulsionadas pelas mídias e nascidas das necessidades mercadológicas, podendo haver, sim, uma qualidade verdadeira naquilo que o mercado escolhe para fazer sucesso. Com a poesia não se dá o mesmo simplesmente porque ela está – como sempre esteve – fora desse circuito de mercadorias que movimenta expressivamente certas economias. Daí, temos a impressão de que em outras áreas vive-se uma relevância social quando, na verdade, há somente uma superexposição.
A crítica de arquitetura queixa-se da perda de relevância social da arquitetura; a crítica de teatro queixa-se da perda de relevância social do teatro; a crítica de cinema queixa-se da perda de relevância social do cinema; por aí vai. Os poetas continuam escrevendo como os outros criadores permanecem criando. Pede-se, muitas vezes, explícita ou implicitamente, que os poetas parem de escrever, como se fosse necessário expor, com o silêncio, a sua irrelevância social. Desistência ou protesto, cinismo ou ética, seria preciso cruzar os braços e assumir que a poesia não faz diferença. Mas é curioso que só se pede isso a nós, poetas.
A razão talvez seja simples, porque não participamos do mundo do entretenimento. Se o cinema se calasse, o que seria dos nossos finais de semana e como as TVs por assinatura venderiam novidades? Mesmo o mundo das artes plásticas, ou visuais – que podem movimentar cifras milionárias, alimenta-se de novidades, como a música popular. Já um poeta publica de quanto em quanto tempo? Eu mesmo não publicava há quatro anos. Ferreira Gullar fez uma pausa de dez anos antes de seu último livro.
Não há uma regra, mas o certo é que o tempo dos poetas e da poesia também não colabora e, antes, faz ainda mais eloquente a marginalidade da poesia em relação ao mercado. Poderíamos avaliar esse quadro como vantajoso para a própria poesia? Sim. Mas quem suportaria ver os poetas felizes? Nem os próprios. A dor, o desânimo, o sufocamento, a falta de saída e o apagamento parecem ser, afinal, mais condizentes com uma atividade que encara a existência e a linguagem de modo radical. Mas, secretamente pelo menos, podemos nos sentir felizes como nosso infeliz destino de não produzirmos best-sellers, blockbusters e outros fenômenos de venda. Seria isso uma espécie estranha, torta, de relevância social? De certo modo, sim. Penso, entretanto, que a relevância social stricto sensu, hoje, não está mais na arte, mas na ciência e na tecnologia.

Confira AQUI entrevista na íntegra.


O que me dizem poetas? ;*



Eucanaã é poeta e professor de literatura brasileira na UFRJ. 
Esteve presente na 8º Bienal do Livro de Pernambuco.

7 comentários:

  1. Discordo dele quando fala de temporalidade, o Castanha Mecânica está aí provando isso. O problema mora quem sabe no precoceito - ser poeta, pelo menos atualmente, não é visto com bons olhos - os outros escritores são respeitados, são bem vistos. E os poetas já foram sim aproveitados pela TV, cinema, é só dá uma lidinha na biografia de peças chaves poéticas como Leminski e outros. O poeta é marginalizado, é tidos como maldito na maioria da vezez, tem que morrer ou chorar para alguém olhar comprar... Poeta nem se quer pode vender livro. Sei que já devem está me chamando de radical, será que não há verdade em nada do que eu disse e/ou é uma realidade muito difícil de ser aceitada?

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    Respostas

    1. Eu discordo dessa história de que só os poetas não são bem vistos hoje! Os poetas e todos os demais escritores, digo aqui aqueles que escrevem para sobreviver, não são bem visto ou apoiados já faz algum bom tempo... E também não nego que já foram "aproveitados" pelas mídias Everson, mas o que se questiona é a escala em que isso acontece.

      Adorei o texto que Caju postou a baixo, se é que já não o fez, vale a pena a leitura! ;*

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    2. Eles só divulgam gente consagrada e/ou alguém que eles escolhem para tal. Embora também os outros escritores tb sejam castigados pelo ostinado são o poetas os carregadores de piano

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  2. Também não gostei da explicação dele. Concordo com o D. Everson.

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  3. Meu Mestre Jedi já escreveu isso a 10 anos atrás e pouco ou nada muda: http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/1210.html

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  4. Assino embaixo! Quem sou pra discordar de dois mestres? hahaha ;*

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