Viajantes Interplanetários

quinta-feira, 7 de março de 2013

Poesia, patinho feio do mercado

 Alberto da Cunha Melo
 
 
Sempre posto em desassossego, começo a folhear Poemas Escolhidos, de Jorge de Lima, publicado em 1932 por Adersen-Editores, com belíssima capa em estilo art noveau de Manoel (com o) Bandeira, conterrâneo do Manuel (com u) Bandeira. O nome da editora me pareceu estranho. A José Olympio, a que mais fez pela literatura brasileira, até hoje, só seria criada em 1934. Suspeito que o dono da editora seja um daqueles antigos livreiros, de que fala Darcy Ribeiro, que na década de vinte do século passado começaram a editar e imprimir livros no Brasil. A grande maioria era de imigrantes ou seus descendentes, como Bertaso, Briguiet, Garnier, Garroux, Laemmert, Leuzinger, Plancher, Pongetti e Vecci, entre tantos outros.
Poemas Escolhidos não é o melhor livro do autor, mas é uma espécie de antologia de sua primeira fase pós-parnasiana, com temática popular e folclórica, prefácio entusiástico de José Lins do Rego, e onde estão alguns dos poemas de Jorge de Lima que mais admiro, como Pai João, Madorna de Yayá, Essa Negra Fulô, Inverno, Boneca de Pano, Poema das Duas Mãozinhas e Cantigas. Mas, não estou agora preocupado com a grande obra do poeta alagoano. O que me deixou perplexo foi saber - porque está lá impresso – que um livro de poesia, de um poeta novo, com apenas 37 anos, publicado no Brasil, em 1932, tivera uma edição de 5000 exemplares. Sabendo, de antemão, que Manuel Bandeira publicara, em 1917, o seu Cinza das Horas, numa humilde edição de duzentos exemplares. Quanto a mim, com 61 anos, meu último livro, Meditação sob os Lajedos, teve apenas 450 exemplares.
Entrevistada pelo poeta Mário Hélio, em 1999, a diretora editorial da Record, Luciana Villas-Boas disse que “o livro no Brasil é caro, porque só uma elite lê”, e que a média de tiragem de sua editora é de dois a três mil exemplares, enquanto nos Estados Unidos nenhuma primeira edição “seja lá do que for”, nunca é menor que vinte mil exemplares. Por tudo isso me espantou a edição de 5000 exemplares dos Poemas Escolhidos, pela misteriosa editora carioca Adersen-Editores. Tudo indica que a poesia foi, ao longo do tempo, perdendo prestígio, neste país. E, quanto mais refinada, mais corre o risco do desprezo editorial. Entrevistado pelo jornal eletrônico Agulha, Cláudio Willer disse que “a tiragem média de livros de poesia no Brasil é exatamente a mesma de Porto Rico, país cuja população equivale a 2% da brasileira”. Que diabo o brasileiro tem contra a poesia? Não seria falta de publicidade? Porque a mídia vende até merda enlatada.
Conversando com meu amigo, o sociólogo Pedro Vicente Costa Sobrinho, que dirige editoras desde a juventude, ele me informou que “a poesia tem-se tornado uma arte marginal no mercado editor: os livros de poesia, ou são publicados por iniciativa do próprio poeta ou com o apoio de órgãos públicos”. Cada vez mais me convenço de que estou certo quando digo, nas entrevistas, que a poesia é uma antimercadoria. Essa história da Internet de que, no Japão, os poetas de qualidade têm edições de cem mil exemplares, eu só acredito vendo e não tenho dinheiro para ir lá ver. O exemplo editorial da Adersen-Editores, que homenageio neste artigo, é bastante significativo da visão humanística daquela estranha empresa, que em sua “Nota dos Editores”, finaliza dizendo: “estamos certos de prestar um grande benefício às letras pátrias, oferecendo ao público uma preciosa antologia da obra moderna desse grande poeta moço, que honra a literatura de todos os tempos no Brasil”. O tempo e a crítica se encarregaram de comprovar o acerto do investimento.
O desprezo pela poesia não se limita apenas às editoras comerciais do Brasil, todas elas mesquinhas e tão desatenciosas que não dão satisfação aos autores sobre os originais que lhes mandam, gastando dinheiro com cópias e postagem. Pedro Vicente me chamou a atenção para o fato de nos catálogos das editoras universitárias, como a UNESP, UNB e USP, não constarem títulos de poesia. Mas esse menosprezo pelas musas não é generalizado no universo das editoras universitárias, basta lembrar os exemplos das Editoras da UFPE e da UFRN, com muitas obras publicadas, a maioria delas por iniciativa do poeta César Leal e do próprio Pedro.
Mas, no Brasil, não é somente a poesia que é desprezada. O próprio livro é um objeto de luxo a que poucos têm acesso. Segundo o presidente da Câmara Brasileiro do Livro, Raul Wassermann, a média de leitura per capita, no Brasil, é de um título por ano, enquanto nos países desenvolvidos chega a 15. O que se pode esperar de um país onde 89% dos seus 5.700 municípios não têm livrarias? 
 

6 comentários:

  1. Essa vai para o Caju que deu a dica...


    A melhor do texto é essa frase:"Que diabo o brasileiro tem contra a poesia? Não seria falta de publicidade? Porque a mídia vende até merda enlatada."

    Evoé Castanha Mecânica

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  2. Nd contra minha caríssima Ialy, o texto é apenas para engrossar o caldo

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    1. Achei esse texto sensacional Everson e assinei embaixo lá na outra postagem! ;*

      Tu me ama, eu sei ;D hahaha

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  3. O poeta já traz em si aquela velha imagem do romântico tuberculoso e pobre, que pedia dinheiro emprestado e vivia caindo de bêbado. Ou a do sonhador, que vive com a cabeça nas nuvens e 'não tem uma vida.' Uma de minhas irmãs irritou-me quando publiquei meu primeiro e único livro, dizendo: "Você precisa publicar para ganhar dinheiro! Por que não escreve pornografia?" Ah, que raiva... eu respondi que é porque eu não quero prostituir a minha alma. Acho que ela não entendeu... Precisamos de um Paulo Coelho da poesia para que ela vire moda, e então, finalmente, teremos uma chance.

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    1. Não precisamos de nenhum Paulo Coelho da poesia, nem que ela vire moda... Não precisamos mesmo.

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