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segunda-feira, 21 de abril de 2014

MEXENDO NA SUA RADIOLA

Graxa lança compacto com críticas a Eduardo Campos e idolatria musical


Por: Carolina Santos
O músico Graxa (nome artístico de Angelo Souza) lançou ontem na internet um compacto com duas músicas muito boas. O jogo de palavras, já uma marca do trabalho dele, é usado no título das duas canções: Soul socialista e Eu não Kiss. As duas letras das músicas trabalham com a ironia e a crítica.
A primeira me lembrou do curta-metragem Em trânsito: critica sem rodeios o modelo de desenvolvimento exercido por Eduardo Campos em Pernambuco e até cita aquele polêmico jantar do governador com cineastasEu não Kiss fala sobre essa mania de só se escutar e se discutir bandas consagradas. Abaixo, três perguntinhas para Graxa sobre o compacto.
ouça aqui

Entrevista//Graxa
Soul Socialista é uma crítica aberta a Eduardo Campos. Como foi a composição da música? 
Na verdade é mais um relato de coisas que aconteceram. Aí, como aconteceram mesmo, fica com esse caráter de crítica. Tudo que tá na letra você pode ver na cidade, ou ter lido nos jornais… E a composição surgiu disso. Eu li, vi e escrevi. Compus relatando coisas que estão por aí.


Como você vê as políticas públicas de apoio à cultura em Pernambuco?
Acho estranho o seguinte – vou dar um exemplo. Um músico daqui toca no carnaval, naqueles polinhos, e o cachê demora muito a sair, aí rola um show de uma banda de rock americana, num evento privado, e sai uma grana vinda da secretaria de turismo… Ou então, shows no interior, com grupos de pagode recebendo valores de cachê bem fora da realidade de muitos músicos locais. Essas coisas acontecem aparentemente de forma mais eficaz. E do outro lado aconteceu aquela proibição com pessoal do maracatu de Nazaré da Mata que recebeu uma ordem de interrupção, pois eles não podiam tocar depois das duas da manhã. Acho que não deveria ser assim. O artista local deveria ter mais apoio.

Outra coisa, que deveria também ter um suporte, seria o espaço para a existência do artista. Vê só: tem uma casa de show qualquer que oportuniza a apresentação de um músico, ou então uma exposição de um pintor, esse tipo de coisa. Aí creio eu que as políticas de apoio a cultura deveriam contribuir para a manutenção desses espaços.
Vendo mais do lado do músico mesmo. Uma casa que não está dentro das normas de segurança, ao invés de ser fechada, o que deveria ser feito era uma contribuição da política pública cultural para que o espaço ficasse adequado as normas exigidas. “ah, esse lugar não tem saída de emergência. Esse espaço está faltando tal coisa”. Então… no lugar de ser fechado deveria haver uma contribuição para que o espaço permaneça. E o fato do espaço apresentar artistas locais deveria também gerar algo de positivo. E o que não falta são incentivos que esses lugares merecem.
E aí é isso que eu vejo. Parece que incentivos de grandes proporções são mais interessantes de que aconteçam do que os menores. Pensa na questão de leis de incentivo em que são feitos projetos para que se produza um CD, por exemplo. Um CD, um vinil, um compacto que poderia ser produzido com um valor não tão grande e de forma mais direta, prática, acaba muitas vezes demorando, ou nem existindo, pois tem que ser algo a ser pensado de forma extremamente grandiosa.
Em Eu não Kiss você dá uma cutucada nessa dificuldade das pessoas em não escutarem coisas novas. Qual artista você sempre escuta? E quais artistas novíssimos você recomenda para os leitores do Play ouvirem?
Eu escuto muita coisa, sabe. Na letra fala de Evaldo Braga, de Besame Mucho e tal. Não tenho como dizer que tal artista eu escuto muito. Porque é uma coisa de época mesmo, de período. Eu posso estar ouvindo aquele disco de Diana – o azul – e depois colocar Sabotagem, saca; depois alguma música clássica… sei lá. Isso varia muito. a questão dessa música é o lance do idolatra\idolatria. Que a pessoa não deve se prender só num “tipo de balanço”. Tem que abrir os ouvidos pra todo tipo de música e de qualquer época. Perceber a qualidade e a diferenciação do que está ouvindo.
Hoje rola o maior blá blá blá de que o rock morreu, e mataram o rock e coitado do rock. Muitas vezes quem pensa desse jeito tem mais de 40 anos, ou está beirando essa idade. São os dinossauros do rock, ou os tiozinhos do rock. Se for pensar desse jeito, então morreu foi tudo, o rock, o samba, o e tudo o mais. Eu não penso assim. Acho que tem muito som legal acontecendo por aí.
Em Sergipe tem altas bandas de onde eu ouvi ultimamente os sons mais legais. Pra citar uma, tem uma banda chamada Box e Azulejo que é bem legal. Outra massa é uma de Brasília, chamada Rios voadores. Daqui tem Petrônio e as criaturas – com quem eu vou tocar no dia 03, lá na noite do Desbunde Elétrico VIII. No Rio de Janeiro tem a Digital Ameríndio, que também é muito legal. De São Paulo tem Rafael Castro, que pra mim é um dos melhores compositores que existem atualmente. E é isso.
Letras das músicas do compacto:
Soul Socialista
Sou eu quem constrói os estádios
E os arranha-céus
Sou tão bem articulado
O melhor amigo de Dona Dora do B
Convido os cineastas
Pra um saboroso jantar
Comigo é assim desse jeito
Sou socialista e alimento a cultura
Isso não se pode negar
Se não fosse eu não teria graxa no palco
Sou eu quem reforma avenidas
E mando aterrar a praia
Desenvolvimento ambientalista
E me parte o pâncreas se despejam uma favela Isso não se poder negar
Que culpa tenho eu se no mangue cabe um shopping?


Eu não Kiss 

Escuta bem
Escuta numa boa
Quando cê se prende a tipo só de balanço
Todo mundo em volta permanece com o corpo totalmente parado
E toda vez é o mesmo tipo de som
E ninguém tá ouvindo
E quando o comentário é oportuno só se fala sobre os deuses do rock
Escuta bem Que besame mucho é tão legal
E de uns dias pra cá
Eu tenho ouvido muito Evaldo Braga
E quando convidado ao templo do rock
Pra passar a tarde inteira só ouvindo os discos do Kiss
Com camisetas do Kiss (E “blá blá blá” é do Kiss)
Ah, eu não quis!


Ficha técnica


Soul socialista

Graxa/Angelo Souza: Violão, Guitarra, Baixo, Efeitos, Escaleta, Vozes e “bateria”


Eu não Kiss 

Graxa/Angelo Souza: Guitarra, Baixo, Vozes e “bateria” Hugo Coutinho: Teclado Dani L: Backing vocais

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