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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cinemarte

Boyhood e Birdman


Época de carnaval coincide com a estreia da maioria dos filmes que concorrem ao Oscar. A chamada temporada de prêmios onde Globo de Ouro, Sindicatos, BAFTA, prêmios de críticos e a própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas elegem aqueles que eles consideram os melhores filmes do ano. Neste ano de 2015 existe a polarização do favoritismo entre Boyhood – Da Infância à Juventude e Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Ambos trabalhos que, logo quando lançados ao circuito comercial, foram tidos como favoritos, porém muitos julgavam que eles não teriam força suficiente até o anúncio dos indicados destes diversos prêmios. Mas, com a fraca oferta de bons filmes no ano passado, foram concretizando seu apelo e mantendo o seus nomes na boca de críticos e cinéfilos até a consagração com diversas indicações. Ambos são trabalhos pretensiosos e ousados ao mesmo tempo, vamos qualificar esta ousadia de uma forma relativa, comparada ao que vem sendo produzido por Hollywood nos últimos anos. 


Em Boyhood pesa o fato do diretor Richard Linklater ter levado 12 anos para produzir e filmar esta que parece ser sua obra-prima (confesso que não gostei muito do falatório da trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite, este último título, exceção, ainda supera a verborragia dos filmes anteriores). A trama de Boyhood é simples, aparentemente. Acompanha a vida de Mason (Ellar Coltrane) dos 6 aos 18 anos, o relacionamento com a mãe (Patricia Arquette) e a amizade com o pai (Ethan Hawke), os conflitos da infância, as descobertas da adolescência e a chegada da maturidade e da vida adulta. Talvez a magia de Boyhood resida nesta simplicidade, do acompanhar sutil na vida destes personagens que envelhecem naturalmente aos nossos olhos. A identificação talvez venha também com o que foi retratado, quem nunca viveu uma daquelas situações quando jovem, por mais próxima que fosse da sua realidade, que atire a primeira pedra. Se Boyhood ganhar vai ser justamente pelo esforço do diretor Linklater em concluir sua obra após tanto tempo, assumindo riscos como a desistência de alguém do elenco ou até mesmo a confirmação da falta de talento de alguns dos jovens atores ao longo da produção. A simplicidade aqui contrasta com os milhões gastos e os bilhões almejados pelas superproduções de remakes e super-heróis de HQ’s que monopolizaram a atenção dos estúdios. E que nem sempre rendem boas estórias.


E é justamente isto o que Birdman critica. É um filme que se passa nos bastidores de um teatro da Broadway mas que fala de Hollywood e o seu sistema de produção o tempo todo. Riggan Thomson (Michael Keaton) quer exorcizar o fato de ter interpretado nos cinemas um super-herói e deposita toda a sua fé e dinheiro em uma adaptação de um texto de Raymond Carver que ele mesmo escreveu, dirige e produz. Adaptar Raymond Carver pode ser a redenção de Riggan, que almeja ganhar relevância no meio artístico e não ser lembrado apenas como o cara que fez o homem-pássaro nos cinemas. A descrença em torno desse projeto é geral e tudo em torno desta produção conspira para o erro e o equívoco. Aqui o nome de Alejandro González Iñárritú justifica a pretensão. O diretor mexicano nunca foi dado a tramas fáceis (desde as estórias que se entrecruzam de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, até o drama pesado, longo, quase insuportável, de Biutiful). Birdman é um filme de egos: do protagonista que rema contra a maré para levar adiante a peça e do diretor que gravou o filme num único "pseudo-plano-sequência". A escolha de Michael Keaton, que já interpretou Batman no cinema duas vezes, foi uma grande sacada. Keaton entende a ironia da situação, agarra-se ao personagem, pois sabe que é o papel de sua vida, e mostra na tela o grande ator que sempre foi. Os diálogos são ácidos, o humor é sutil, o elenco magistral e o trabalho de câmera, perfeito, apesar de se fazer notar o tempo todo. A Hollywood fica o gosto amargo de um filme criticar o próprio sistema cinematográfico americano, pelos olhos de um mexicano, e ainda receber diversos prêmios por isso.


São dois filmes muito próximos, independentes, que apenas denunciam (com suas particulares qualidades) o poço da mediocridade que Hollywood está caindo com tantas adaptações de HQ’s e remakes, incapaz de produzir obras relevantes ou que, ao menos, a represente nas grandes premiações. O lucro, que se esvai, a cada ano, o desinteresse do público é apenas o sinal de que algo precisa mudar...


3 comentários:

  1. Birdman preciso terminar de assistir, porque a priori não agradou. Boyhood ainda não caiu nas minhas mãos. Gostei bastante do jogo da imitação.

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  2. Eu só comecei a gostar do "Birdman" depois que fui vê-lo no cinema. Minha torcida é para ele. Gostei também de O Jogo da Imitação. Veja Whiplash, um trabalho fantástico.

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