Viajantes Interplanetários

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O segundo estômago do poeta


  
  Houve um tempo qu’eu me sentia aflito quando não conseguia tirar algum poema do papel. Eu tinha tudo em mãos: as palavras certas, a vivência, a observação, o sentimento. Mas nada. Dias e dias inteiros ocupados para resultados medianos.

   Quando eu era criança — e a indústria de engarrafamento de água mineral ainda não tinha fincado sua bandeira no subúrbio — bebíamos água filtrada. Em dias de limpeza ou troca de vela, nem adiantava correr com o copo para a torneirinha. Havia todo o aparato: filtro, água, copo, sede. Não importava. Era preciso esperar a filtragem.

   Com o poema também é assim. É preciso ruminá-lo antes de colocá-lo no papel. Quando o poeta não faz a filtragem, a impressão que fico é que ele comeu alguma coisa estragada e está com uma puta caganeira.

   A quem interessar possa, elenco meu top 3 dos sintomas dessa diarreia: 1. percepção imediata do que o poeta anda lendo (na melhor das hipóteses é um sinal que lê pouco e se impressiona fácil; na pior: cara de pau mesmo); 2. poemificação de qualquer coisa (dos males, o menor: é um indício que ele tem uma vida de poucos eventos; e como caroço no angu: incapacidade de lidar com o insondável); 3. tendências biográficas (pelo lado bom: são rastros de uma arrogância mental sadia de quem acha que vive muito; pelo pior lado: cegueira na alteridade).

   Mas no final das contas, como tudo começa com T e o mundo vai se acabar em merda mesmo, o segundo estômago serve apenas para fazer um cocozinho mais modelado, discreto e confortável ao cu. Há quem diga que bosta tem que feder, então... Joga tudo no ventilador logo.

Fred Caju

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