Viajantes Interplanetários

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quinta-feira, 28 de maio de 2015

FILOSOFANDO À TOA 29

SOBRE UM PARICEIRO POETA OU A POETICIDADE VIVA EM
VALMIR JORDÃO.

“O velho mendigo Diógenes
Na sua porta a girar
Perguntei qual o problema
Más ela não quis falar
Nas mãos tinha uma lanterna
Pra iluminar toda a cidade
Talvez ainda hoje procure
Por alguém de verdade”
(Marcelo Nova, Sinais de Fumaça)


Por Célio Lima.

Pra começar essas linhas sobre um pariceiro contemporâneo me veio como uma nuvem negra algumas perguntas, -O que gosto em poesia? -O que de escrever essas linhas? Respondereis a primeira que servirá para uma possível resposta da segunda e das demais pensadas/por sobre a mente avoada.-Gosto de poesia que me cheira a perfume provocação. Gosto de poesia que tenha a força de um soco de Éder Jofre ou um coice de uma égua parida. Gosto de poesia agite meus neurônios tal qual um grupo de siris compactuados em uma lata posta em uma areia praiana. Gosto de poesia. Gosto de poesia que tenha uma boniteza questionadora ou o puro sarcasmo das drummondianas de: Carlos Drummond de Andrade em sua “ESPECULAÇÃO EM TORNO DA PALAVRA HOMEM” ou em algum “CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO” Ou da força dos versos da nossa musilingua presentemente em Marcelo Drummond Nova: “Noite, talvez pelo seu tamanho / Me faz sentir um corpo estranho / Não lhe posso pertencer / Noite, eu lhe adoro e lhe detesto / Mas me conformo com o seu resto / O dia que vai nascer”. Isso  que deveria parecer com uma introdução é apenas pra dizer da importância e da força alem da poeticidade também encontrada nos versos do poeta do Jordão como veremos mais adiante em RECIFERIDO e outros Haicais Maloqueiristas Blues.

O poeta Valmir Jordão é um bardo underground contemporâneo dono de uma ferocidade ativa tanto em sua poética quanto em suas discussões ou enfrentamento existencialmente diário. Ele é um poeta que vive minuto a minuto sua poesia, desde 1982 esse bardo urbano/suburbano poe um pé no mato na poesia e um pé no rock de alguns bicos (trampos gráficos, oficinas literárias, sarais em bares entres outros blues). Sua poesia-viva é em sim um espetáculo diário. Esse marginal poeta, segue na margem de toda uma industria cultural em prol do capital entretenimentalmente falando com sua luta presente em varias antologias, 12 livros/livretos publicados, sua marginália esta presente em haicais Hai Kaiando em dois reais vendidos em formato cordel nos bares e no bordeis do real brasil pernambuco falindo/falando para o mundo.

Eis Valmir Jordão criador de versos que viraram algo próximo dos ditados populares/domínio público: “Coca para os ricos / Cola para os pobres / Coca-Cola é isso aí” , “Ana que ia / Ana que ria / Ana queria/ Anarquia!” , “Índio não quer Sting. Índio quer estilingue”. Ele autoralmente descreve/denuncia a sua própria condição marginal e dos da sua geração ou subdivisões dos movimentos pariceiros da nossa literatura pernambucana (poetas marginais / poetas independentes/ poetas alternativos) nos versos do poemas Ah, recife / aos pariceiros dos anos 80 (um uivo recifense): “Dizem os bardos que uma cidade / é feita de homens, com várias mãos / e o sentimento do mundo. / Assim Recife nasceu no cais / de um azul marinho e celestial, / onde suas artérias evocam: /Aurora, Saudade, Concórdia, Soledade, / União, Prazeres, Alegria e Glória. / Mas nos deixa no chão, / atolados na lama / de sua indiferença aluviônica: / a ver navios com suas hordas invasoras / e o Atlântico como possibilidade /de saída...”
“Eu vi os expoentes da minha geração consumindo muito álcool, na Hospício em busca da loucura, chapando insistentemente no Beco da Fome para recitar na Sete de Setembro contra o auto otarismo e o autoritarismo em voga, / andando pelas ruas da Boa Vista feito zumbis bêbados, ansiando fumar um nos miseráveis apartamentos sem água e sem luz, flutuando sobre os tetos da cidade contemplando junkies que desnudaram seus cérebros ao céu e, viram o CCC com as mãos sujas do sangue do Pe. Henrique, / cansados dos acadêmicos sem brilho, dissecando as almas dos poetas malditos, com toda a mediocridade e arrogância dos que tentam apropriar-se do alheio, / enquanto Gregório de Matos, William Blake e Patativa do Assaré reluzem em outras dimensões, éramos detidos e baculejados pela polícia suspeitos de vagabundagem e subversão, / e vi a juventude mergulhada nas drogas alopáticas, uns dependentes do Algafan, outros no éter e no Pambenyl e mais alguns usando Cocaína ou Fiorinal para encontrar o seu próprio paraíso artificial, / presenciei o bardo Alberto da Cunha Melo a combater o regime de exceção na estrada do excesso, pois todo gênio que se preza, busca a sua garrafa, enquanto boa parte da sua geração camuflava-se na aura da vaidade literária, / Erickson Luna com sua auto-flagelação nas drogas, no alcool e na anorexia das noites insones no Cais de Santa Rita ou em Santo Amaro das Salinas, armado de copo na mão com aparência a esganar o mundo e todo mundo, a dizer que a felicidade é apenas um golpe publicitário, / Espinhara espinhando as relações com o seu jeito espinhoso de ser, Lautreamont, Augusto dos Anjos, Jean Genet e Chico Buarque foi o seu quarteto mais que fantástico, fora de si, tentou afogar-se na lama mas a Buarque de Macedo rejeitou esta atitude, semeava o Lítero e colhia pessimismo com o seu mau humor e machismo digno de um Bukowski e, foi o poeta da flor e do espinho, / o comportamental França nos seus recitais notívagos e sedutores, a atrair burguesas branquelas com a sua fala e o seu falo de ébano, a repetir quem quer querelas? / o deseducador cultural Jomard Muniz de Brito evocando Glauber e o Tropicalismo nordestinado contra a caretice nos meios e nas mansardas recifenses, a quebrar tabus sendo eternamente Pagú e Papangu nos canaviais e carnavais da Mauricéia travada pela burrice, mil vivas ao mau velhinho! / Fred Caminha nas pensões e manicômios, nos Coelhos e no Bairro do Recife ou na Palma em busca de uma puta, uma carreira ou uma bola para rolar na Conde da Boa Vista, Príncipe ou Manoel Borba, / Jorge Lopes tatuando na própia alma seus desejos de sexo, drogas & rock and roll, da Caxangá a Riachuelo na sua batalha diária contra a fome de viver, para não torna-se uma garatuja de si própio, / vi Cida Pedrosa, Lara, Samuca, Miró e os Cavaleiros da Epifania a calvagar na Ilusão de Ética e na resenha Interpoética sempre Amarginal, / Hector Pellizzi, Juhareiz Correya, Fátima Ferreira, Wilson Vieira, Joca de Oliveira e Humberto Felipe ecoando poemas no Savoy, no Calabouço,e na Livro 7 mostrando o quanto a América estava indignada, / e todos se reergueram no passo libertário do Frevo e na síncope do Maracatu e na batida literalmente do Côco, provaram o vinho avinagrado dos tempos difíceis, mas mesmo assim deixando o que houve para ser dito no tempo após a morte...”

Se temos o poeta como um homem de seu tempo, indivíduo este que em sua obra há um combate tanto sobre forma de denúncia como um embate visivelmente com o meio e não só elogios ou o rasgar ceda das localizações de espaço/tempo: geográficas. Temos na poeticidade viva de Valmir Jordão, Versos que brigam, que esfaqueia, versos balas que mostram as marcas do tempo e do ambiente visto/vivido por o poeta que nem sempre seja um fingidor diante da dor e do odor nos males existenciais. A poesia talvez tente criar um sentido através de suas bases estéticas ou de sua busca pela perfeição. O poeta consciente em si até quando remando contra a maré ou cavalgando errantemente tenta transforma-se em um outro no mundo tido como transformação constante como dizia o grego Heráclito de Éfeso. Temos então nessa mistura ou duelo de uma sensibilidade literária e um desejo de mudança, de justiça, de querer ser/ver acontecer a transformação tanto no que confere ao elemento local (espaço/tempo) quanto ao vir a ser do próprio indivíduo artista que consciente da sua condição/militância (libertaria) que também evoluir. Eis a poeticidade presentemente na obra desse poeta/bardo do Jordão. Que em sua busca vida que transcender em vontade potenciadora a própria extinção produzida pelos instintos do muitas vezes bestial animal racional politikarmente falando ou ser politico que ver e questiona em sua obra um Capibaribe descapibarizado, esse cidadão de pernambuco falindo para o mundo como nos versos do: Monólogo de um Cidadão da Mauricéia Favelada: “Princesa das águas sujas / das pontes e dos mendigos / não és digna da legião / de subversivos gerados em bacanais. / Foda-se, Recife! / com a insurreição reacionária / com essas procissões / de famintos e esfarrapados, /  com a decadente oligarquia malária, / e seus poetas abandonados”.

Valmir Jordão por ele mesmo, literatura pra que:
“Eu não faço livro só pra vender. É o seguinte: a literatura pra mim é um caminho. Não é um fim de ganhar dinheiro, sabe? Nem meio de ganhar dinheiro. Pra mim ela é um instrumento de trabalho, que eu adoro fazer, que eu amo fazer. Agora, essa história do toma lá, dá cá, existe, sim, porque você recebe muito carinho, muita gentileza, e um livro não paga uma gentileza. Nem há dinheiro que pague uma gentileza, entendeu?”

Sobre seu processo criativo:
“Eu anoto, assim, tópicos. E começo a somatizá-los. Assim, sem forçar a barra. Começo a pensar sobre eles e aquilo vai tomando conta. Fico esperando o poema engravidar”

Sobre sua produção/organização:
“Eu deixo amadurecer uns três, quatro dias, e volto, pra rebuscar. E fico juntando. Quando tenho em torno de 40 ou 50 poemas, já dá um livro. Aí eu vou pra um Lan House. Eu não tenho computador, detesto incomodar. Você entrar no computador de um seu amigo, eu acho uma intromissão. Aí no Lan, digito, coloco no meu email, guardo, e gravo num CD. Depois levo pruma gráfica”.

Sobre o seu reconhecimento como poeta:
“Foi no Diretório Central de Estudantes, da Federal, em 1990, quando vendi numa noite 500 livros. Pra mim aquilo foi impactante. Então foi quando eu decidi abandonar as outras coisas. Porque eu já fui balconista, já fui auxiliar administrativo, trabalhei 10 anos na Farmácia dos Pobres”.

Sobre a sua opção por literaruta em vez de um trabalho qualquer:
“Porque eu tinha preguiça de fazer as atividades que eu estava exercendo. Por pura preguiça. Eu achava aquilo tão medíocre, entendesse? Eu me disse: pra ganhar esse dinheiro que eu ganho aqui, ralando 10 ou 12 horas por dia, eu ganho trabalhando pra mim”.

Sobre suas influências poeticas:
“Não sou panfletário, mas adoro poesia política. Lorca, Neruda, Carlos Drummond de Andrade. Na poesia pernambucana tenho muitas. Alberto da Cunha Melo, com Noticiário. Ele me chamou a atenção de que eu era capaz de escrever poesia. É um livro de 78. Manuel Bandeira. Jaci Bezerra. Angelo Monteiro. Antonio Campos. Erickson Luna, o grande mestre, o grande pareceiro, porque éramos pareceiros. Não éramos parceiros nem irmãos. Éramos pareceiros. Geraldino Brasil.



“Oh! minha bela, inefável E inescrupulosa veneza.
Dos mercados e mascates, Hoje perseguidos porque
Pobres enfeiam a cidade. E, a especulação imobiliária
Projeta-se sobre a ambição Dos farisaicos governantes.
Teu podre hálito, reflete-se Nos fétidos discursos dos
Infectos poderes, e na Sua gênese reacionária. 
Cidade invadida, cidadãos excluídos 
De suas benesses e riquezas. Das bacanais nos carnavais 
Regadas no erário, bancada Pelos otários, e dadivadas
Aos condes Joões, aos Barões sebosos e aos Séquitos famintos.
Salve Recife! cidade madrasta Prostituta dos vampiros
De todas as dicções e origens. Meu Capibaribe, Capiberibe!
Descapibaribado pela Indiferença dos gestores 
E, do perjúrio oficial...

(Valmir Jordão)

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